Coluna Tiago da Silva Candido

A nova corrida do ouro digital: como a IA está redefinindo tecnologia, trabalho e poder

Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ser promessa de laboratório para se tornar infraestrutura crítica — tão estratégica quanto energia elétrica ou internet. Mas, por trás dos chatbots simpáticos e dos filtros de foto “inteligentes”, está se desenhando uma mudança profunda na economia, na política e no cotidiano das pessoas.

De aplicativos de produtividade a decisões de crédito, passando por diagnósticos médicos, a IA hoje está em tudo — muitas vezes, sem que o usuário perceba.


Da febre dos chatbots à “corrida dos modelos gigantes”

O ponto de virada recente foi a popularização dos modelos de linguagem generativa, capazes de escrever textos, criar imagens, gerar código e até produzir vídeos. Empresas de tecnologia entraram numa disputa praticamente diária para lançar modelos mais rápidos, mais “inteligentes” e mais baratos.

Essa corrida se concentra em três eixos principais:

  • Modelos de linguagem (LLMs): usados em assistentes virtuais, atendimento ao cliente, análise de documentos, programação.
  • Modelos multimodais: entendem e geram texto, imagem, áudio e, em alguns casos, vídeo — a base para tradutores em tempo real, ferramentas criativas e sistemas avançados de análise de mídia.
  • Ferramentas de automação inteligente: IA como “cérebro” por trás de fluxos de trabalho, desde responder e-mails até orquestrar processos complexos em empresas.

A consequência: a fronteira entre “software comum” e “software com IA” está desaparecendo. Hoje, qualquer novo produto digital que se pretenda competitivo já nasce com IA no centro da experiência.


O impacto no trabalho: assistente ou substituto?

A discussão sobre empregos continua polarizada. De um lado, há o medo de automação em massa; de outro, a promessa de aumento de produtividade.

Na prática, o cenário real tende a ser mais híbrido:

  • Profissões cognitivas passam por reconfiguração, não apenas substituição.
    • Advogados usam IA para revisar contratos e preparar minutas.
    • Jornalistas e redatores utilizam ferramentas para pesquisas iniciais, rascunhos e edição.
    • Programadores aceleram desenvolvimento com geração de código assistida.
  • Tarefas repetitivas e padronizáveis são as primeiras na linha de frente: suporte básico ao cliente, rotinas de backoffice, triagem de informações.

Em muitas áreas, a IA não “tira o emprego” de uma pessoa, mas muda o que significa ser bom naquele trabalho. Profissionais que sabem dialogar bem com sistemas de IA, checar resultados criticamente e integrar essas ferramentas na rotina tendem a ganhar vantagem.


Dados: o novo petróleo… e o novo problema

Se a IA é o motor, os dados são o combustível. Mas essa metáfora já mostra sinais de esgotamento.

Os modelos de IA são treinados com gigantescos volumes de informação coletada na internet: textos, imagens, vídeos, códigos. Isso levanta questões delicadas:

  • Direitos autorais: obras de artistas, fotógrafos, escritores e jornalistas foram usadas para treinar modelos, muitas vezes sem consentimento ou compensação.
  • Privacidade: dados sensíveis podem ser incorporados em modelos e, em alguns casos, reaparecer de forma inesperada.
  • Qualidade da informação: se a internet se enche de conteúdo gerado por IA, modelos futuros podem ser treinados em dados “reciclados”, criando um ciclo de empobrecimento e ruído.

Reguladores e tribunais em vários países já discutem se e como as empresas de IA devem pagar por esse uso massivo de conteúdo e garantir proteção de dados pessoais.


Democracia, desinformação e o poder de sintetizar realidade

Ferramentas capazes de criar textos, áudios e vídeos altamente convincentes em segundos mudam o jogo da comunicação política e social.

Os riscos são claros:

  • Deepfakes mais baratos e convincentes: imagens e vídeos falsos de figuras públicas ou pessoas comuns.
  • Campanhas de desinformação em escala industrial: milhares de mensagens “personalizadas” para grupos específicos, com tom e narrativa adaptados.
  • Erosão da confiança: se tudo pode ser falso, inclusive o que é verdadeiro, a percepção pública fica ainda mais vulnerável.

Ao mesmo tempo, há um movimento de resposta: sistemas de verificação de fatos, marcas d’água digitais em conteúdos gerados por IA, checagem automatizada de desinformação. A disputa não é só tecnológica, mas também política e cultural.


O embate por regulação: quem controla a IA?

Governos ao redor do mundo começaram a agir, mas em ritmos e direções diferentes.

Entre os temas centrais de debate estão: Teste iptv

  • Transparência: empresas devem explicar como seus modelos foram treinados e quais dados foram usados?
  • Responsabilidade: quem responde por um dano causado por IA — o desenvolvedor, quem implementa, ou o usuário final?
  • Risco sistêmico: modelos muito poderosos, se mal utilizados, podem ampliar ataques cibernéticos, gerar ferramentas biológicas perigosas ou automatizar manipulação em escala.

Há um equilíbrio delicado: regular demais pode sufocar inovação; regular de menos concentra poder em poucas empresas e aumenta riscos sociais.


O lado oculto: energia, hardware e concentração de poder

Por trás da interface amigável de um chatbot, há uma infraestrutura pesada:

  • Consumo de energia: treinar e rodar grandes modelos exige data centers inteiros, com impacto ambiental significativo.
  • Dependência de chips avançados: poucas empresas dominam a fabricação de processadores especializados (GPUs e similares), criando gargalos geopolíticos.
  • Concentração de poder tecnológico e econômico: companhias que controlam infraestrutura, dados e modelos ganham vantagem quase intransponível sobre concorrentes menores.

Isso alimenta discussões sobre IA aberta vs. fechada: se os modelos devem ser disponibilizados de forma mais transparente e reutilizável, ou mantidos como propriedade exclusiva de grandes plataformas.


E o usuário no meio disso tudo?

Para o usuário final, a IA tende a ser percebida de maneira muito mais pragmática:

  • “Isso me ajuda a fazer meu trabalho mais rápido?”
  • “Isso é confiável o suficiente para eu tomar uma decisão?”
  • “Quais dados meus estão sendo usados e para quê?”

A resposta honesta, hoje, é: a IA é extremamente útil, mas longe de ser infalível.

Erros sutis, alucinações (respostas inventadas com aparência de verdade) e vieses herdados dos dados de treino exigem uma postura crítica. A “alfabetização em IA” — saber usar, interpretar, contestar e complementar resultados — pode se tornar tão essencial quanto saber usar um navegador ou um editor de texto.


O que vem a seguir

A tendência é que a IA deixe de ser “produto” destacado e passe a ser camada invisível em tudo:

  • Aplicativos mais proativos, que antecipam necessidades.
  • Ferramentas criativas que misturam texto, imagem, áudio e vídeo em um fluxo só.
  • Interfaces cada vez mais conversacionais e multimodais, diminuindo a barreira entre “falar com a máquina” e “falar com uma pessoa”.

No fundo, a grande disputa não é só sobre tecnologia, mas sobre quem define as regras desse novo ambiente e quem se beneficia dele.

Para governos, empresas, profissionais e cidadãos, a questão central não é mais se a IA vai transformar o mundo, mas como e em benefício de quem essa transformação será conduzida.

Tiago da Silva Candido

Colunista de portais como Correio Braziliense, Tonafama, F5 online e Imprensa e Midia e mais 1500 sites.
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