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Alinne Prado, representatividade sempre interessa

Alinne Prado, jornalista e apresentadora nasceu uma mulher preta, pobre e favelada que desde cedo aprendeu a lidar com vários tipos de preconceito e sabe da importância da representatividade.

A jornalista sempre se sentiu privilegiada por ter uma família estruturada, amorosa, com preocupação quanto a sua educação. Foi a primeira pessoa na família a ter diploma universitário. Mas o preto cresce com um limite já definido do que ele pode querer ser. É sempre numa postura de subserviência e Alinne lembra da mãe, que para defendê-la ensinava a olhar para baixo quando questionada, a estar sempre limpa para causar boa impressão, a usar os cabelos alisados e presos para ser aceita socialmente, mas ressalta que quando a gente consegue ultrapassar esse lugar, ninguém para a gente!

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Foto: beauty_aramisfreitas

Primeira mulher negra a sentar na bancada do programa “Vídeo Show”, na TV Globo, Alinne conta que a questão do racismo sempre esteve presente na sua  vida, desde quando era deixada de lado na escola particular em que estudou e chamada de Macaca, quanto na procura de trabalhos em lojas  de shoppings que diziam que ela não atendia ao perfil do lugar, mais ou menos o que escutou quando foi desligada do programa da TV Globo. 

Alinne sabe da responsabilidade de ser referência para outras pessoas e se vê nesse lugar desde a sua formação universitária em um ambiente onde essa formação sequer era cogitada. Sua conquista deixou de ser só pessoal quando passou a ser referência para outras pessoas que viram que também poderia ser possível para elas. Quando foi para a TV, mais uma vez rompeu com a bolha de expectativa imposta e mostrou que todos podem e devem estar presentes em tantos lugares quanto desejarem. “Ser porta voz da esperança é uma honra e também uma responsabilidade grande, não posso vacilar. O uso do que eu faço com o meu conhecimento é que faz diferença. Peço sempre pra minha voz ser usada para um bem maior, para eu ser instrumento de transformação. Meu verbo tem que tocar alguém e isso vai se transformando em uma corrente, uma corrente do bem. A gente precisa ser mais generoso, o amor e o humor conseguem transformar e educar, permeia muitas vezes mais do que o verbo acadêmico, podendo trazer luz e consciência.”

A questão educacional no país, é uma grande preocupação para Alinne, principalmente quando se fala da população preta e pobre. “Falta educação, especialmente para dialogarmos com códigos sociais diferentes dos nossos e furarmos bolhas. O problema não está em ser diferente e sim, em ser desigual. Sem esse foco na educação, não existe transformação social e quiçá chegarmos à questão racial. Não conseguiremos melhorar nossa história enquanto a gente viver no sistema perverso do capitalismo selvagem, que não educa é só torna nossos sentimentos mais primitivos com foco na disputa“, aponta. “O projeto de educação é coisa de 10 anos para se formar uma geração, pra poder começar a mudar e envolve não só o ensino em si, mas questões como alimentação, moradia, saúde. “  Nas favelas, a fome é grande e muitos dos moradores não têm acesso nem saneamento básico. Você já parou pra pensar o que isso significa? “ questiona.

Em vários momentos da sua vida, Alinne continuava pela sobrevivência, lei da favela que está nela desde sempre e que hoje, ela pode falar que sobreviveu, tem saúde mental, domínio sobre ela mesma e muito orgulho de ver seu legado sendo passado para o filho Arthur de 8 anos, que é cheio de consciência social e racial.

Alinne acredita que muita coisa já mudou, mas ainda existe um longo caminho pela frente. Há pouco tempo atrás ela era a única em diversos espaços. Hoje já olha para o lado e vê outros negros. Ainda somos poucos, mas graças às nossas vozes estarem se unindo e se organizando, estamos conseguindo alcançar e naturalizar nossas presenças em diferentes esferas sociais.

A cada trabalho, conquista, lugar ocupado, Alinne não está sozinha, existe uma quantidade enorme de pessoas que se vêm e se sentem representadas e que vão se percebendo também sujeitos com direitos de sonhar cada vez mais alto e transformar esses sonhos em realidade.

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