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Karlota Gourmet enfrenta novo tratamento contra o câncer enquanto leva gastronomia brasileira de luxo pelos EUA

Chef paraibana radicada em Orlando amplia atuação para cidades como Seattle, Miami e Nova York enquanto concilia agenda internacional com rotina médica. Sua trajetória evidencia a força de mulheres imigrantes que transformam trabalho, fé e identidade cultural em permanência

 

A trajetória da chef paraibana Karlota Gourmet, radicada em Orlando, nos Estados Unidos, passou a concentrar, nos últimos meses, duas dimensões que raramente caminham sem conflito: a expansão profissional e a fragilidade imposta pela doença. Em novo tratamento contra o câncer, ela decidiu manter ativa a marca que construiu no mercado norte-americano de eventos de alto padrão, agora com compromissos previstos em cidades como Seattle, Miami, Nova York e outras regiões dos Estados Unidos.

Conhecida entre brasileiros que vivem na Flórida pela gastronomia de luxo em eventos personalizados, Karlota tornou-se uma referência em Orlando ao unir técnica, identidade brasileira e apresentação sofisticada. Clientes passaram a associar sua marca a experiências exclusivas, o que fez surgir o apelido de “a Hermès da gastronomia brasileira nos Estados Unidos”. A comparação, embora carregue o verniz do consumo de luxo, também revela um movimento mais amplo: o da valorização de profissionais imigrantes que conseguem transformar cultura de origem em linguagem de mercado.

A agenda da chef já reúne compromissos até fevereiro de 2027. O dado chama atenção porque aparece justamente no momento em que ela enfrenta uma rotina de consultas, exames e desgaste físico. Karlota afirma que pensou em interromper completamente o trabalho, mas percebeu que o afastamento também afetava sua saúde emocional. “Eu percebi que, quando eu me desconectava completamente do meu propósito, emocionalmente eu ficava ainda mais abalada. O que me fez seguir em frente foi entender que eu precisava adaptar o ritmo, mas não abandonar meus sonhos”, diz.

O próximo compromisso de maior destaque será um workshop presencial em Seattle, considerado por ela um marco na expansão da Karlota Gourmet para fora da Flórida. Segundo a empresária, os convites surgiram de maneira espontânea, por meio de redes sociais, indicações de clientes e conexões criadas ao longo dos anos. “Seattle surgiu exatamente assim, através de conexões reais, da confiança no nosso trabalho e da força que a marca criou fora de Orlando”, afirma.

A expansão, nesse caso, ultrapassa a lógica empresarial. Para Karlota, trabalhar durante o tratamento não significa negar a doença, mas reorganizar a vida em torno de limites possíveis. “Não vou dizer que é fácil, porque existe uma rotina médica intensa e momentos de muito desgaste físico. Mas tenho aprendido a respeitar meus limites e ao mesmo tempo entender que eu não quero parar de viver enquanto faço tratamento”, afirma.

A estrutura da marca também precisou se adaptar. A equipe passou a respeitar com mais atenção os limites físicos da chef, enquanto a família participa da organização de viagens e compromissos. A empresária diz que aprendeu a reconhecer a dependência dos outros não como fraqueza, mas como parte de uma nova forma de conduzir a vida. “Existe uma preparação emocional, logística e até física para que eu consiga cumprir os compromissos da forma mais saudável possível. Eu aprendi que pedir ajuda também é uma forma de força”, pontua.

Nos eventos fora da Flórida, Karlota pretende reforçar uma gastronomia que combina alta apresentação com raízes nordestinas. A proposta é levar ao público norte-americano uma cozinha brasileira menos caricata e mais ligada à memória afetiva, à origem e à experiência. “Quero apresentar muito da minha essência brasileira, principalmente das minhas raízes nordestinas, mas com a sofisticação e a identidade que a Karlota Gourmet construiu”, explica.

A história de Karlota também ajuda a iluminar uma realidade comum a muitos brasileiros que constroem carreira fora do país: a necessidade de transformar trabalho em pertencimento. No caso da chef, essa construção ganhou contornos ainda mais fortes diante da doença. A marca, antes associada apenas a eventos de luxo, passou a carregar também uma narrativa de resistência, fé e continuidade.

“Essa força vem muito da minha fé, da minha família e do propósito que eu sinto quando trabalho. A gastronomia sempre foi muito maior do que cozinhar para mim. É uma forma de amar pessoas, de criar memórias e de transformar momentos”, conta.

Mesmo atravessando uma das fases mais duras de sua vida, Karlota afirma que não pretende deixar a doença definir integralmente sua identidade. A decisão de seguir trabalhando, ainda que em outro ritmo, tornou-se uma forma de preservar aquilo que a mantém de pé. “Ninguém precisa esperar a vida ficar perfeita para continuar sonhando. Existem dias difíceis, dias de medo e dias de exaustão. Mas enquanto existir vida, ainda existe propósito”, declara.

Em um mercado marcado por exigência estética, performance e produtividade, a permanência de Karlota na cena gastronômica norte-americana aponta para uma ideia menos óbvia de sucesso: aquela que não ignora a vulnerabilidade, mas aprende a caminhar com ela.

Thiago Michelasi

Thiago Michelasi é jornalista, assessor de imprensa e apresentador de TV. Atualmente é CEO do Tô Na Fama!, portal parceiro de conteúdo do IG e apresentador do Programa Tô Na Fama! em afiliadas da Rede TV!. Além disso é colunista no Cartão de Visita do R7, no IG Gente, no Meia Hora e de diversos outros portais além de já ter sido colunista também no Observatório dos Famosos do UOL. Siga Thiago Michelasi no Instagram: instagram.com/thiagomichelasi
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