
Imagine que o corpo humano é como uma grande orquestra. Cada instrumento (cérebro, coração, hormônios, sistema nervoso, fígado, pulmões etc.) precisa tocar no tempo certo para a música soar harmoniosa.
Quando alguém faz uso constante de uma substância (como álcool, cigarro, drogas, café em excesso) ou de um comportamento viciante (como jogos, pornografia ou até redes sociais), essa orquestra passa a tocar uma música repetitiva, mas que o corpo se acostuma a ouvir.
“essa orquestra passa a tocar uma música desafinada e repetitiva, mas que o corpo se acostuma a ouvir..”
“Quando a pessoa para o uso da substância, a sensação de alivio é grande, mas, ao mesmo tempo, aquela era a trilha sonora que levava sua vida, então o corpo estranha, a mente sente falta e o organismo tenta se readaptar através desses sinais e sintomas fisicos, mentais e comportamentais” Esse processo se chama abstinência.” – comenta –
Dr. Carlos Augusto, Psicólogo – Especialista em Tabagismo e Comportamento Humano.
1. O cérebro em abstinência: a fábrica da recompensa em choque
Nosso cérebro tem uma área chamada sistema de recompensa, que envolve principalmente a dopamina, o neurotransmissor do prazer, da motivação e do aprendizado.
- Quando usamos uma substância ou repetimos um comportamento viciante, o cérebro libera dopamina em excesso.
- Com o tempo, o cérebro se acostuma a esse excesso e passa a precisar cada vez de mais estímulo para sentir o mesmo prazer.
Ao interromper o uso, o cérebro fica “órfão” dessa descarga artificial de dopamina. O resultado?
- Humor deprimido
- Irritabilidade
- Dificuldade de concentração
- Ansiedade e vontade intensa de retornar ao hábito
É como se a fábrica da recompensa entrasse em greve: nada parece ter graça, nem comer, nem conversar, nem dormir bem.
2. O corpo físico: quando os sistemas reclamam
A abstinência não é só mental, ela é física também. O que acontece depende da substância, mas há padrões comuns:
- Sistema nervoso: tremores, insônia, agitação, sensibilidade exagerada.
- Coração e pressão arterial: aceleração, palpitações ou oscilações de pressão.
- Aparelho digestivo: náusea, diarreia ou prisão de ventre, já que intestino e cérebro conversam o tempo todo.
- Músculos e dores: sensação de peso, câimbras, dores generalizadas (o corpo pede para ser notado).
Esses sintomas são sinais de que o corpo está tentando recalibrar seus próprios mecanismos internos sem depender de estímulos externos.
3. A psicologia da abstinência: entre perda e renascimento
Do ponto de vista psicológico, a abstinência parece um luto. A pessoa perde algo que fazia parte do seu cotidiano, mesmo que fosse prejudicial. Há uma mistura de saudade, raiva, medo e vazio.
Mas também há uma oportunidade: é nesse espaço vazio que nasce a chance de criar novos hábitos, novas fontes de prazer e um sentido de vida mais autêntico.
A ciência psicológica mostra que, nesse período, práticas como terapia cognitivo-comportamental, mindfulness e atividade física ajudam o cérebro a reconstruir sua fábrica de dopamina de maneira saudável.
4. Quanto tempo dura?
Não existe uma única resposta, cada organismo é uma orquestra com seu próprio ritmo.
- Para a nicotina, os sintomas mais fortes duram em média 2 a 4 semanas.
- Para o álcool, de alguns dias a poucas semanas.
- Para drogas mais intensas, como cocaína ou opióides, os sintomas podem durar meses, intercalando períodos de melhora e recaídas de desejo.
Mas há uma boa notícia: o corpo é extraordinariamente adaptável. Depois da tempestade inicial, o organismo começa a reorganizar-se, e a música da orquestra volta a soar mais limpa e harmoniosa.
5. O que isso significa para sua vida
A abstinência é um período difícil, mas também é a ponte entre a dependência e a liberdade.
- O corpo sofre porque está se desintoxicando.
- A mente sofre porque está reaprendendo a viver sem o estímulo artificial.
- Mas a recompensa final é um organismo mais equilibrado, um cérebro mais criativo e uma vida em que o prazer não depende de algo externo, mas nasce de dentro.
“A abstinência é um processo de cura. O corpo sente falta porque estava acostumado, mas ao mesmo tempo se fortalece ao aprender a viver em equilíbrio. É como podar uma árvore: no começo parece doloroso, mas logo ela floresce com mais vigor” – afirma Dr. Carlos Augusto
Fontes científicas que sustentam este conteúdo
Aqui estão estudos, revisões e teorias que embasam as afirmações do texto:
- “The Neurobiology of Substance Use, Misuse, and Addiction”, do NCBI Bookshelf — uma revisão abrangente sobre como o cérebro responde ao uso contínuo de substâncias, tolerância, abstinência e recaída. (NCBI)
- “Neurobiology of Addiction”, StatPearls (2023) — descreve os circuitos de recompensa, dopamina, e os mecanismos biológicos por trás de como o vício se desenvolve e persiste. (NCBI)
- “Overview of withdrawal syndrome mechanisms in different substance abuse addictions: Neuronal circuits and transmitters” (2020) — um artigo que examina os sintomas de abstinência, tanto físicos quanto afetivos, e os sistemas cerebrais envolvidos (dopamina, CRF, sistema de estresse, locus coeruleus etc.) (neuroscigroup.us)
- “The biology of addiction”, Canadian Journal of Anesthesia (2016) — revisão narrativa que faz um bom panorama de como a biologia do vício funciona, incluindo alterações genéticas, ativação dos circuitos de recompensa, resposta ao estresse, recaída etc.
- “Neurobiological Theories of Addiction: A Comprehensive Review” (2024) — revisa teorias modernas sobre dependência: hipóteses dopaminérgicas, teoria do processo oposto (“opponent-process”), alostasis, neuroinflamação etc.
“Increased Dopamine Receptor Activity in the Nucleus Accumbens Shell Ameliorates Anxiety during Drug Withdrawal” (Radke & Gewirtz, 2012) — um estudo que mostra como sintomas emocionais negativos da abstinência (ex: ansiedade) se relacionam à queda de sinalização dopaminérgica, e como moduladores dopaminérgicos podem aliviar esses sintomas.









