Coluna Faustino da Rosa Júnior - Nerd de NegócioNerd de Negócio

A AGI virou argumento comercial. Falta quem a defina, meça e certifique

Em setembro, a OpenAI declarou o início da era da inteligência artificial geral e o CEO da Nvidia afirmou que ela chegou. Carente de definição técnica consensual e de conceito jurídico, o termo se tornou o ativo mais valioso e mais impreciso da tecnologia, com efeitos diretos em contratos bilionários e na regulação.

 

Setembro de 2026 concentrou o calendário de lançamentos mais denso da história da inteligência artificial. No dia 1º, a Anthropic apresentou o Claude Fable 5.1 e o Mythos 5.1, segunda geração de sua linha mais avançada. No dia 2, o Google lançou o Gemini 3.8 Flash, cerca de três semanas depois da versão anterior. No dia 3, a OpenAI apresentou o GPT-6 Astra, modelo capaz de operar um computador como uma pessoa. Até o fim do mês, OpenAI e Anthropic somariam oito modelos lançados em 29 dias.

No lançamento do Astra, Greg Brockman, presidente da OpenAI, afirmou que o modelo pode vir a ser lembrado como o começo da AGI, a inteligência artificial geral. Três dias depois, Jensen Huang, CEO da Nvidia, escreveu no X que a AGI havia chegado. A frase de Huang, vinda do executivo que vende a infraestrutura de toda a indústria, repercutiu nos mercados e nas redações do mundo inteiro.

A pergunta que interessa a investidores, juristas e executivos vai além da manchete. O que exatamente chegou? E quem tem autoridade para dizer?

O que o Astra entrega, em números

Os dados divulgados pela OpenAI permitem separar capacidade de narrativa. No subconjunto offline do benchmark OSWorld 2.0, que mede o uso autônomo de computador, o Astra marcou 72,6%, levando cerca de 40 minutos por tarefa. O modelo anterior, GPT-5.6 Sol, havia marcado 65,7%, com cerca de 75 minutos. No DeepSWE, teste de engenharia de software, o Astra pontuou 74,1%, contra 72,7% do antecessor, com custo estimado por tarefa cerca de 57% menor na configuração máxima.

O dado mais relevante está na segurança. A OpenAI classificou o Astra no nível crítico de cibersegurança de seu protocolo interno de riscos, o primeiro modelo da empresa nessa faixa. O modelo atingiu 100% no ExploitBench, contra 78,5% do antecessor, e descobriu durante a avaliação duas vulnerabilidades até então desconhecidas, as chamadas zero-day. A empresa também registrou queda na monitorabilidade da cadeia de raciocínio do modelo, e por isso iniciou a liberação por um programa de acesso restrito.

Na API, o Astra custa US$ 10 por milhão de tokens de entrada e US$ 50 por milhão de tokens de saída, com janela de contexto de cerca de 1,05 milhão de tokens.

O retrato que emerge é de um salto real e mensurável em autonomia e em capacidade ofensiva cibernética. Os testes medem competências específicas, em ambientes controlados. Generalidade, no sentido de desempenho humano ou superior em praticamente qualquer tarefa cognitiva, exige outro tipo de prova.

Um termo sem dono

A ciência da computação carece de definição consensual de AGI. Algumas propostas falam em desempenho humano na maioria das tarefas cognitivas. Outras exigem capacidade de aprender qualquer tarefa nova com poucos exemplos. Outras ainda medem a autonomia para executar projetos longos sem supervisão.

A própria OpenAI adota em seu estatuto uma definição econômica: sistemas altamente autônomos que superam os humanos na maior parte do trabalho economicamente valioso. A definição é útil como orientação estratégica e frágil como critério verificável. Quanto vale o trabalho economicamente valioso? Em que proporção? Medido como?

O conceito de AGI está ausente de todas as leis relevantes do mundo. O AI Act europeu trabalha com o conceito de modelos de uso geral com risco sistêmico, presumido a partir de um limiar de poder computacional usado no treinamento. O PL 2338/2023 brasileiro trata de sistemas de IA de propósito geral. Os dois textos deixam a declaração de que uma máquina atingiu inteligência geral sem qualquer efeito jurídico.

Essa lacuna produz efeitos concretos em três frentes.

Primeira frente: os contratos

A relação entre Microsoft e OpenAI é o exemplo mais conhecido de contrato em que a palavra AGI tem valor financeiro direto. O acordo original previa que os direitos da Microsoft sobre a tecnologia da OpenAI se limitariam à fase anterior à AGI. Quem declarasse a chegada da AGI poderia, na prática, redefinir a partilha de bilhões de dólares em propriedade intelectual e receita.

A cláusula gerou atrito durante anos. Na reestruturação anunciada em outubro de 2025, as partes estabeleceram que uma declaração de AGI pela OpenAI passaria a ser verificada por um painel independente de especialistas, e os direitos de propriedade intelectual da Microsoft foram estendidos até 2032.

A solução contratual ilustra o problema. Quando um conceito sem critério objetivo decide direitos de propriedade e fluxos de caixa, as partes precisam inventar um árbitro. O painel independente funciona como um tribunal técnico privado, criado porque o conceito em disputa carece de definição aceita.

Qualquer empresa que firme contratos de longo prazo envolvendo modelos de IA, incluindo licenças, parcerias de desenvolvimento e acordos de exclusividade, precisa evitar cláusulas que dependam de conceitos indefinidos. Gatilhos contratuais devem se apoiar em métricas verificáveis: desempenho em testes específicos, receita, capacidade computacional, decisão de painel técnico com critérios previamente estabelecidos.

Segunda frente: a regulação

Quando a própria desenvolvedora declara a AGI, falta um verificador independente. O dilema da autorregulação aparece aqui em forma concentrada. A empresa que anuncia o marco tecnológico mais importante da história é a mesma que lucra com o anúncio.

Os reguladores evitam a palavra por bons motivos e preferem critérios operacionais: limiares de capacidade computacional, resultados em avaliações de capacidades perigosas, níveis de autonomia. Essa abordagem tende a prevalecer, e o termo AGI deve permanecer fora dos textos legais por muito tempo.

Há uma consequência prática para o debate público. Declarações de AGI podem servir tanto para atrair investimento quanto para pressionar por regulação mais leve, sob o argumento de que a corrida é existencial e o país que hesitar perde. Analistas e jornalistas precisam ler esses anúncios com a mesma cautela que dedicam a projeções de resultado de empresas de capital aberto.

Terceira frente: o mercado

Os modelos de ponta estão cada vez mais próximos nos testes padronizados. Em janeiro de 2026, o índice independente da Artificial Analysis já apontava empate técnico entre os três principais modelos da época. Num mercado em que o desempenho converge, a narrativa vira diferencial competitivo.

Declarar AGI posiciona o produto acima da concorrência, atrai talentos, sustenta valuations e reforça a percepção de liderança. A declaração de Huang, por sua vez, atende ao interesse de quem vende os chips: se a AGI chegou, a demanda por capacidade computacional tende a crescer ainda mais.

A métrica que importa

Brockman fez uma observação valiosa no lançamento do Astra: o preço por token é a métrica errada para avaliar modelos, e o critério correto é o custo por tarefa concluída. Ele tem razão, e o mesmo raciocínio vale para a AGI. Empresas e profissionais precisam saber o que o modelo faz bem, a que custo, com que taxa de erro e com que risco.

Uma matriz simples de avaliação resolve a maior parte das decisões. Complexidade da tarefa, volume de operações, nível de precisão exigido, necessidade de resposta em tempo real e custo por resultado entregue. Com esses cinco critérios, o rótulo AGI perde relevância na decisão de compra.

O recado para as profissões reguladas

Em 17 de setembro, a OpenAI lançou o Astra for Law, versão do modelo com índice de pesquisa jurídica. O movimento sinaliza que os laboratórios miram profissões reguladas, em que o erro gera consequência legal, disciplinar e ética.

No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça disciplinou o uso de IA no Judiciário pela Resolução 615/2025, com exigências de supervisão humana, transparência e governança. A OAB publicou recomendações sobre o uso de IA generativa na advocacia, reforçando a responsabilidade pessoal do advogado pelo conteúdo que assina. Ferramentas como o Astra for Law aumentam a produtividade e mantêm intacta a responsabilidade profissional. Um parecer com jurisprudência inexistente gera responsabilidade para quem o assina, seja qual for a ferramenta usada.

Conclusão

A AGI virou um termo de disputa. Enquanto faltar um critério verificável, aplicado por um avaliador independente, toda declaração de que ela chegou deve ser lida como afirmação de parte interessada. O papel do analista, do jurista e do investidor é perguntar o que foi medido, por quem, com que método e com que consequência.

O salto de capacidade de setembro é real. Os agentes já operam computadores, encontram vulnerabilidades e executam tarefas longas. Essas capacidades exigem respostas jurídicas e de governança agora, com ou sem o rótulo. A discussão sobre AGI interessa à filosofia e aos contratos. A discussão sobre o que os modelos já fazem interessa a todos.

Faustino da Rosa Júnior - Nerd de Negócio

A presente coluna é presidida pelo Dr. Faustino Júnior (@faustinojunior.adv.br). Faustino da Rosa Junior é Advogado Tributarista, Empreendedor Digital, Investidor Imobiliário, Escritor Best-Seller e Criador do Método Nerd. Possui mas de dez milhões de seguidores nas redes sociais. São abordados temas atuais relacionados ao mundo dos negócios, da tecnologia, do direito, da medicina, de investimentos, de inovação, de entretenimento, de cultura pop, de economia, de política e de personalidades, sempre sob um olhar nerdístico.
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