Coluna Rodrigo Teixeira

Entre o diagnóstico e a cura, existe uma história que também precisa ser cuidada

Doutora em Enfermagem Oncológica explica como sexualidade, identidade, autoestima e experiências de vida interferem na recuperação de pacientes com câncer

Apesar dos avanços da medicina terem ampliado as chances de cura e sobrevida de pacientes com câncer, um tema continua sendo pouco discutido nos consultórios e hospitais: a sexualidade. Questões como desejo, autoestima, intimidade, imagem corporal e identidade ainda recebem pouca atenção durante o tratamento, embora influenciem diretamente a qualidade de vida de quem enfrenta a doença.

Para a doutora em Enfermagem Oncológica, sexóloga e pesquisadora em Neurociência da Sexualidade, Íris Bazílio, essa lacuna está relacionada à formação dos profissionais de saúde, que ainda prioriza os aspectos biológicos da doença em detrimento das dimensões emocionais e relacionais do paciente. “Quando fazemos essa pergunta, não estamos falando apenas de sexo. Estamos dizendo ao paciente: ‘Eu vejo você inteiro. Não apenas o seu câncer’. É exatamente nesse momento que a ciência encontra a humanidade”, afirma.

Segundo a especialista, tratamentos como quimioterapia, cirurgia e hormonioterapia podem provocar alterações que vão muito além dos efeitos físicos, afetando autoestima, desejo sexual, imagem corporal e os vínculos afetivos.

Além disso, experiências traumáticas anteriores ao diagnóstico também podem interferir na forma como cada paciente vivencia sua sexualidade durante e após o tratamento. “Não basta tratar a doença. É preciso compreender como o cérebro, as emoções e a história de vida influenciam a recuperação e a qualidade de vida dessas pessoas”, explica.

Um cuidado mais humano e baseado em evidências

De acordo com Íris Bazílio, recursos como práticas integrativas, mindfulness e outras intervenções baseadas em evidências científicas podem auxiliar na redução da ansiedade, do estresse e de sintomas que comprometem a intimidade e o bem-estar, sempre como complemento ao tratamento convencional.

No SUS, onde está a maior parte da população negra brasileira, falar sobre sexualidade durante o tratamento oncológico ainda é um desafio atravessado por desigualdades sociais, raciais e pelo acesso limitado a um cuidado integral. A enfermeira oncológica Natália Moreira, que atua no Instituto Nacional de Câncer (INCA) e uma das alunas da Dra. Íris Bazílio, afirma que esse olhar ainda é pouco explorado na formação dos profissionais. “Minha área de estudo é a sexualidade humana e o câncer, mas nunca havia estudado pela perspectiva da neurociência. Achei inovador”, relata.

Segundo ela, compreender a influência dos traumas na resposta sexual trouxe uma nova forma de enxergar o atendimento. “Esse entendimento me fez estar mais atenta e sensível em como as mulheres com câncer vivenciam sua sexualidade e ao que pode estar oculto nessa experiência.”

Para Natália, discutir sexualidade durante o tratamento exige preparo. “Não adianta o profissional mencionar o tema apenas para dizer que foi mencionado. É preciso estudo, aprofundamento, reflexão e capacitação. A neurociência traz uma nova perspectiva de cuidado.”

Capacitação busca preparar profissionais para essa realidade

Com 28 anos de atuação na enfermagem, Íris Bazílio desenvolveu o minicurso “A Neurociência da Sexualidade: Qualidade de Vida Após o Câncer”, voltado a profissionais interessados em incorporar uma abordagem mais humanizada ao cuidado oncológico.

A especialista é enfermeira do Instituto Nacional de Câncer (INCA), doutora em Saúde da Mulher e Oncologia, sexóloga e pesquisadora em Neurociência da Sexualidade na UFRJ e criadora de um ambulatório pioneiro dedicado à sexualidade de mulheres com câncer de mama. O curso reúne sua experiência clínica, acadêmica e científica para apresentar estratégias que ajudam profissionais da saúde a compreender os aspectos neurobiológicos, emocionais e relacionais envolvidos na recuperação dos pacientes.

Outras informações sobre os cursos e projetos desenvolvidos por Íris Bazílio estão disponíveis no site de seu Instituto (irisbazilio.com), no seu Instagram (@iris.bazilio) e em seu canal no YouTube.

Rodrigo Teixeira

Repórter com mais de 15 anos de carreira. Formado em Jornalismo e Direito pela Estácio de Sá e pós-graduado em Fiscalização, Controle e Orçamento Público e Metodologia do Ensino Superior, ambas pela Escola do Legislativo do Estado do Rio de Janeiro (Elerj). Com experiência em diversos segmentos do jornalismo, entre eles, no meio corporativo, artístico, e no poder público. Com passagem pelas redações dos maiores portais de internet do país, como Terra, UOL e R7. Inclusive já produziu conteúdo para o portal iG. Experiência de gestão, redação e projetos especiais para o on-line dos Jornais O Dia e Meia Hora. Web Repórter da Rede TV, na sucursal do Rio de Janeiro e correspondente do programa "Tô na Fama", da Rede TV do Tocantins. E correspondente no Rio de Janeiro do programa Tô no SBT, do SBT Barra do Tocantis.
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