Espírito Santo além do óbvio: um roteiro entre o mar e a montanha
Do litoral à serra em poucos dias, o estado capixaba surpreende com gastronomia, cultura e natureza

O Espírito Santo não costuma aparecer entre os destinos mais comentados do Brasil, e talvez seja exatamente isso que o torna tão especial. Em poucos quilômetros é possível reunir praias urbanas, cidades serranas de herança europeia, monumentos históricos e experiências gastronômicas fora do comum. Para quem busca uma viagem diversa e longe do turismo de massa, a terra capixaba merece atenção.
O ponto de partida natural é Vitória. A capital do estado é localizada em um conjunto de ilhas, a cidade combina dinamismo urbano com orla bem estruturada. A Praia de Camburi, a mais conhecida, tem uma ótima infraestrutura ao longo de toda a faixa de areia e é o tipo de lugar que convida o visitante tanto para uma caminhada matinal quanto para um fim de tarde tranquilo à beira-mar.
Goiabeiras e o Convento da Penha: cultura e fé na largada do roteiro
Em Goiabeiras, bairro da zona norte de Vitória, funciona uma associação de artesãs que mantém viva uma tradição de mais de quatro séculos: a fabricação das panelas de barro. A visita é gratuita e permite acompanhar todo o processo artesanal, desde a extração da argila até a queima ao ar livre. O acabamento leva tanino da casca do mangue, técnica que garante a resistência e cor características às peças. São essas panelas que dão identidade à culinária local, e entender sua origem transforma a experiência de sentar à mesa para uma moqueca capixaba mil vezes melhor.
A poucos minutos de Vitória, na cidade de Vila Velha, temos o Convento da Penha. Fundado em 1558 e construído sobre um penhasco, é um dos santuários mais antigos do Brasil. A subida íngreme pode ser feita a pé ou com transporte oficial por valor simbólico. Lá no topo, o panorama sobre o mar e as cidades ao redor já justifica o esforço, e o interior da capela guarda muito mais: imagens sacras, entalhes em madeira e séculos de história concentrados em cada detalhe.
Ibiraçu e Santa Teresa: espiritualidade e cultura italiana no interior capixaba
A cerca de 1h30 de Vitória, a cidade de Ibiraçu abriga o Grande Buda, inaugurado em 2021 com 35 metros de altura. Foi instalado no Mosteiro Zen Morro da Vargem e o monumento é considerado o maior do Ocidente, impressionando tanto pela escala quanto pelo entorno verde. A escadaria que leva até a estátua, cercada pela natureza, cria uma transição gradual entre o ritmo do dia a dia e um ambiente mais contemplativo. E o melhor: a visita é gratuita.
A cerca de 50 minutos de Ibiraçu, temos Santa Teresa que é uma das cidades mais charmosas do interior capixaba. Reconhecida como a primeira cidade brasileira colonizada por imigrantes italianos, ela carrega essa herança de forma bastante viva: na arquitetura preservada, nas tradições locais e, principalmente, na gastronomia. Massas frescas e receitas tradicionais marcam os restaurantes da cidade, e o Bar Elite, um dos mais antigos do estado com 100 anos de funcionamento, merece uma parada só para sentir a atmosfera do local.
A Pedra Azul e a Rota do Lagarto: o coração das montanhas capixabas
A Pedra Azul é uma formação granítica com mais de 500 milhões de anos que muda de cor ao longo do dia, variando entre tons de azul, verde e cinza conforme a incidência da luz. No contorno da rocha é possível identificar o formato de um lagarto, referência que dá nome à famosa rota turística da região. Protegida dentro de um parque estadual, ela é o símbolo visual de toda essa parte do roteiro.
É na Rota do Lagarto, porém, que a experiência realmente ganha vida. A estrada, cercada de verde e com vista constante para a pedra, reúne cafés especiais, restaurantes aconchegantes, chocolaterias artesanais e muito mais. Duas paradas se destacam na rota: a Selah, onde é possível mergulhar no processo produtivo do chocolate, da colheita do cacau até a barra finalizada; e a Fazenda Camocim, produtora do raro café do jacu, resultado de um processo artesanal com mais de 50 etapas e considerado um dos mais exclusivos, e caros, do mundo.
Dicas práticas para organizar a viagem
Alugar um carro é a melhor forma de explorar o Espírito Santo com liberdade, já que boa parte dos atrativos fica fora da capital. A melhor época para visitar é entre maio e setembro, período mais seco, com temperaturas amenas na serra e céu mais aberto para aproveitar as vistas.
Vale reservar as experiências gastronômicas e as visitas a fazendas com antecedência, especialmente em alta temporada. E uma dica que faz diferença: não lote seu roteiro. O charme do Espírito Santo está justamente no ritmo mais leve, nas paradas espontâneas e no tempo para absorver cada lugar sem pressa.









