Coluna Faustino da Rosa Júnior - Nerd de NegócioNerd de Negócio

Faustino da Rosa Júnior explica: a Reforma Tributária vai aumentar ou reduzir o imposto da sua empresa?

 

Desde que a Reforma Tributária foi aprovada, uma pergunta passou a dominar reuniões empresariais, escritórios de contabilidade, departamentos jurídicos e conselhos de administração: afinal, minha empresa vai pagar mais ou menos impostos?

A resposta mais honesta é também a mais incômoda: depende.

A grande dificuldade é que boa parte do debate público sobre a Reforma Tributária tem sido conduzida a partir de uma lógica simplificada, quase matemática, baseada exclusivamente na comparação de alíquotas. O problema é que tributos não funcionam apenas pela alíquota. Eles funcionam pela interação entre atividade econômica, cadeia produtiva, geração de créditos, fluxo financeiro e estrutura operacional. Em outras palavras, duas empresas sujeitas à mesma alíquota poderão ter resultados tributários completamente diferentes.

Durante décadas, o sistema brasileiro foi marcado por uma enorme fragmentação. Empresas precisavam conviver simultaneamente com ICMS, ISS, PIS, Cofins e diversos regimes especiais que variavam conforme o setor, o estado e até mesmo o município. A promessa da Reforma Tributária foi justamente substituir essa complexidade por um modelo mais uniforme, baseado no IBS e na CBS. Entretanto, simplificar não significa necessariamente reduzir a carga tributária para todos.

O primeiro ponto que o empresário precisa compreender é que a Reforma cria uma lógica muito mais dependente de créditos fiscais. Em termos simples, empresas que conseguem gerar muitos créditos ao longo da cadeia tendem a ser beneficiadas pelo novo sistema. Já empresas cuja estrutura possui poucos insumos creditáveis poderão sentir um aumento relevante na carga efetiva.

É exatamente por isso que determinados setores observam a Reforma com maior preocupação. O segmento de serviços, por exemplo, tradicionalmente possui menos despesas geradoras de crédito quando comparado à indústria. Uma clínica médica, um escritório de advocacia, uma consultoria, uma agência de marketing ou um desenvolvedor de software normalmente possuem uma estrutura baseada em conhecimento, mão de obra especializada e capital intelectual. São atividades extremamente valiosas economicamente, mas que nem sempre geram o mesmo volume de créditos tributários que uma operação industrial.

O resultado é que muitas empresas do setor de serviços poderão enfrentar uma carga efetiva superior àquela que suportam atualmente. Isso não significa que todas serão prejudicadas. Significa apenas que a análise deixou de ser genérica e passou a exigir estudo individualizado.

O mesmo ocorre com negócios digitais. Influenciadores, infoprodutores, plataformas de ensino, agências digitais, empresas de software, marketplaces e creators estão entre os setores que precisarão compreender profundamente os efeitos da nova tributação. O modelo de negócios digitais frequentemente opera com margens elevadas e estruturas enxutas. Quando a Reforma desloca parte relevante do benefício tributário para a geração de créditos, essas operações passam a exigir um planejamento muito mais sofisticado.

Por outro lado, empresas com cadeias produtivas longas e elevado volume de aquisição de insumos podem encontrar um ambiente mais favorável. A possibilidade de aproveitamento mais amplo de créditos reduz distorções históricas e tende a eliminar parte da cumulatividade que sempre encareceu a produção nacional. Para muitas indústrias, a Reforma representa não apenas simplificação, mas potencial ganho de competitividade.

Existe ainda um aspecto pouco discutido: a Reforma Tributária não altera apenas o valor do imposto. Ela altera o custo de conformidade. Empresas gastam bilhões todos os anos para cumprir obrigações acessórias, interpretar legislações conflitantes, responder fiscalizações e administrar litígios tributários. Se a simplificação prometida realmente se concretizar, parte desse custo oculto poderá ser reduzida. Em alguns casos, a economia operacional poderá compensar eventual aumento de carga tributária nominal.

Outro erro comum é imaginar que a Reforma produzirá efeitos idênticos para todas as empresas de um mesmo segmento. Duas clínicas médicas podem ter impactos distintos. Dois escritórios de advocacia podem experimentar cenários completamente diferentes. Dois e-commerces podem possuir resultados opostos. Tudo dependerá da forma como cada negócio está estruturado, dos contratos utilizados, da cadeia de fornecedores, do aproveitamento de créditos e da eficiência da gestão tributária.

É justamente nesse ponto que surge a importância do planejamento fiscal inteligente. Durante muito tempo, muitos empresários enxergaram o planejamento tributário como algo reservado apenas para grandes corporações. Essa visão nunca foi verdadeira e tende a se tornar ainda mais equivocada com a Reforma Tributária. O novo sistema exigirá conhecimento profundo sobre operações, contratos, fluxo financeiro, precificação e estrutura societária. Quem compreender essas variáveis terá vantagem competitiva. Quem ignorá-las poderá pagar mais do que deveria.

Na prática, a pergunta correta não é se a Reforma Tributária aumentará ou reduzirá os impostos da sua empresa. A pergunta correta é se a sua empresa está preparada para operar dentro do novo modelo tributário que está sendo construído.

A Reforma não cria vencedores e perdedores de forma automática. Ela cria um novo ambiente econômico. Nesse ambiente, empresas bem estruturadas tendem a capturar oportunidades. Empresas que continuarem operando com base em premissas antigas poderão enfrentar custos inesperados.

O maior risco não está necessariamente na Reforma. O maior risco está em acreditar que ela pode ser ignorada até o momento em que entrar plenamente em vigor. Quando esse momento chegar, as empresas mais preparadas já terão reorganizado processos, revisado contratos, ajustado sistemas e estruturado sua estratégia fiscal. As demais estarão tentando compreender um jogo cujas regras já terão mudado.

Por isso, a verdadeira discussão não é sobre aumento ou redução de impostos. A verdadeira discussão é sobre preparação. Porque, na Reforma Tributária, a diferença entre pagar mais ou pagar menos começará muito antes da emissão da primeira guia de recolhimento.

Faustino da Rosa Júnior - Nerd de Negócio

A presente coluna é presidida pelo Dr. Faustino Júnior (@faustinojunior.adv.br). Faustino da Rosa Junior é Advogado Tributarista, Empreendedor Digital, Investidor Imobiliário, Escritor Best-Seller e Criador do Método Nerd. É colaborador e colunista do Migalhas, da Forbes, da Exame, da Veja, do Uol e do Ig. Possui mas de dez milhões de seguidores nas redes sociais. São abordados temas atuais relacionados ao mundo dos negócios, da tecnologia, do direito, da medicina, de investimentos, de inovação, de entretenimento, de cultura pop, de economia, de política e de personalidades, sempre sob um olhar nerdístico.
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