Música

“Freak le boom boom”, de Gretchen, ganha EP com quatro versões remix pela Universal Music Brasil

Lançada em 1979, no momento em que Gretchen começava a se projetar no cenário do pop brasileiro, “Freak le boom boom” sempre foi um hit de pista sui generis. Cantada em inglês, com intervenções em francês e espanhol, a canção combinava uma estrutura simples — deliciosamente circular como “La bamba” ou os rocks de Elvis Presley — com uma estética latina farsesca, palmas orgânicas, metais sabor mariachi e um canto assumidamente performático em sua sensualidade. Tudo gravado ao vivo, em poucos canais, sem recursos digitais. Tropicalismo raiz — ou puro suco de Brasil, como se diz hoje.  

Quase meio século depois, a música ressurge com força inesperada, redescoberta por novas gerações em vídeos de arquivo (de programas como os da Xuxa e de Gugu), trilha sonora de coreografias de TikTok e pistas de dança. É desse encontro entre passado e presente que nasce o EP “Freak le boom boom [Remixes]” (Universal Music Brasil), que reúne quatro versões da faixa: a gravação original, de 1979; dois remixes assinados por Mister Sam, autor e produtor da canção; e uma releitura inédita feita por Gab Miranda, cantor e produtor radicado na Europa e filho de Gretchen.

Desde a origem, “Freak le boom boom” nasceu de um olhar para fora. Mister Sam concebeu a música após uma temporada em Nova Iorque, em contato direto com o mercado latino e com uma lógica de pista marcada por gritos, palmas e respostas coletivas. “Freak aí tem o sentido de ‘agite’. E ‘boom boom’ não era bunda, era bum de impacto, de sucesso”, explica o produtor. “A ideia sempre foi essa: agitar, botar pra frente”.

A gravação original carrega uma energia bruta, direta. Palmas batidas pelos próprios cantores, interjeições repletas de divertidos clichês de latinidade — tudo isso carrega um calor que atravessou o tempo. “Isso tudo foi gravado como se fosse ao vivo. Não tinha computador, não tinha edição. Eram oito canais, todo mundo cantando e batendo palma junto”, lembra Mister Sam.

Para Mister Sam, a permanência escapa a explicações fáceis. “É difícil explicar uma música durar 46 anos. A única explicação é que ela deve ser muito boa para continuar funcionando”, afirma. O fato de uma canção atravessar décadas, sobreviver a mudanças de linguagem, tecnologia e comportamento e ainda encontrar resposta imediata no corpo de quem dança diz menos sobre estratégia e mais sobre eficácia musical, acredita ele. Há algo ali — na batida direta, na alegria explícita, na comunicação sem mediações — que continua operando, independentemente da época. A longevidade, nesse sentido, não é um acidente: é um indício da força de “Freak le boom boom”.

As duas versões assinadas por Mister Sam no EP exploram essa força. Nelas, Mister Sam atualiza o arranjo e reorganiza os planos sonoros, sem alterar os timbres originais. “Não é recriar a música. É atualizar o volume, o impacto, pra escuta de hoje”, resume. Na “Original 12’’ long version 1979”, o andamento mais rápido e a abertura com as palmas isoladas dão à faixa um curioso caráter frenético-hipnótico.

Já o remix de Gab Miranda propõe um deslocamento mais radical. Produzido do zero, ele incorpora percussões de escola de samba — dialogando com a estética do carnaval assim como a gravação de 1979 dialogava com os sons latinos. Mas Gab não deixa de se apropriar de uma latinidade mais contemporânea, herdeira de ídolos pop como Ricky Martin e Shakira, além do eletrônico no qual está mergulhado atualmente. “Eu quis misturar a energia do carnaval brasileiro com a música eletrônica que eu vivo hoje na Europa”, explica Gab. “Trazer arranjos mais frescos, uma batida envolvente, sem perder a origem da música”.

Radicado na França, ele aponta também a influência direta do ambiente em que vive. “Aqui tem uma tradição muito forte de música eletrônica, da french house, da pista”, diz. “Quis trazer esse olhar europeu, mas sem apagar o DNA da música. Pelo contrário, quis reforçá-lo”.

O processo foi também um diálogo afetivo e geracional. Gretchen acompanhou de perto cada etapa da produção, sugerindo ajustes para que a releitura não rompesse com o DNA original. Para Gab, a canção sempre esteve ligada a uma ideia de liberdade. “Essa música chegou como uma revolução, um gesto de liberdade feminina num Brasil ainda muito conservador, que vivia a ditadura”, diz.

Gab também aponta a força da coreografia como motor da redescoberta. “A dancinha é icônica. E nessa era de TikTok, de vídeo curto, isso voltou com tudo”, diz o produtor. “As pessoas estão percebendo que as coisas de antigamente eram mais naturais, mais divertidas. E estão abraçando isso”.

Reunidas, as quatro versões revelam porque “Freak le boom boom” volta a soar atual. Não apenas pela nostalgia ou pela coreografia icônica, mas porque carrega, desde a origem, uma ideia da festa como linguagem, do corpo como discurso e da alegria como mandamento maior. O EP abraça o passado e o projeta para a pista de hoje, onde o verão 2026 se anuncia como mais um capítulo dessa história de rebolados, gemidos, palmas e groove.

Thiaggo Camilo - @thiaggocamilo

Jornalista e assessor de imprensa. Foi jurado do quadro musical do programa Mais Show com Danny Pink na Rede Vida. Colunista do Tô Na Fama!, portal parceiro de conteúdo do IG. Atualmente está a frente da sua agência de comunicação e licenciamento. Instagram e Twitter @thiaggocamilo
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