Coluna Tiago da Silva Candido

Privacidade digital em 2025: o que as empresas realmente sabem sobre você

Seu e-mail, sua localização, seus hábitos de consumo e até seu humor: nada disso é mais totalmente “seu” na internet.

Nos últimos anos, o debate sobre privacidade digital deixou de ser um tema restrito a especialistas e entrou na rotina de usuários comuns. Vazamentos de dados em massa, golpes cada vez mais sofisticados e anúncios “misteriosamente” personalizados levantam uma pergunta incômoda: quem está controlando nossas informações?

No Brasil, a criação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) foi um marco importante, mas a distância entre o que a lei prevê e o que acontece na prática ainda é grande. Enquanto isso, empresas — das Big Techs a aplicativos pouco conhecidos — continuam disputando, em silêncio, o ativo mais valioso da era digital: seus dados pessoais.


Muito além do cadastro: o que as empresas coletam hoje

Quando você pensa em “dados pessoais”, provavelmente lembra de nome, CPF, e-mail, telefone. Mas, em 2025, esse é apenas o começo.

Aplicativos, sites e dispositivos conectados conseguem registrar uma quantidade impressionante de informações, muitas vezes sem que o usuário perceba:

  • Localização (precisa ou aproximada)
  • Horário e frequência de uso de apps
  • Tipo de conteúdo consumido (vídeos, notícias, temas sensíveis)
  • Dispositivo usado (modelo de celular, sistema operacional, navegador)
  • Interações sociais (quem você segue, com quem fala, de que grupos participa)
  • Padrões de comportamento (horário que acorda, quanto tempo fica online, rotinas)

Combinados, esses dados permitem construir perfis extremamente detalhados, usados para direcionar anúncios, ajustar algoritmos e, em alguns casos, até prever comportamentos.


IA + dados: o novo motor da personalização (e do controle)

A popularização da Inteligência Artificial intensificou ainda mais essa coleta.

Se antes os dados eram apenas “guardados” e analisados de forma mais limitada, hoje modelos de IA conseguem:

  • cruzar informações de múltiplas fontes
  • identificar padrões sutis de consumo, humor ou opinião
  • classificar e rotular usuários em grupos de interesse (“propenso a comprar”, “alto risco de cancelar”, “sensível a preço”)

Essa combinação cria o que especialistas chamam de economia da vigilância: quanto mais você usa serviços digitais, mais previsível — e valioso — você se torna para empresas, anunciantes e plataformas.

“O usuário acha que está usando o aplicativo de graça; na verdade, é o aplicativo que está usando o usuário como insumo”, resume um pesquisador em privacidade digital.


LGPD: o que a lei garante (e o que ainda não funciona como deveria)

Entrando em vigor em 2020, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) colocou o Brasil no mapa das legislações modernas de privacidade, ao lado de normas como o GDPR europeu.

Na teoria, a LGPD garante direitos importantes:

  • saber quais dados uma empresa coleta sobre você
  • entender para que esses dados são usados
  • solicitar correção, exclusão ou portabilidade das informações
  • retirar o consentimento para certos tipos de tratamento

Na prática, porém, o cenário é desigual:

  • muitas empresas pequenas e médias ainda não se adequaram completamente
  • formulários de “consentimento” continuam longos, confusos e pouco transparentes
  • usuários, em geral, não conhecem seus direitos ou não sabem como exercê-los
  • pedidos de exclusão de dados podem ser burocráticos ou ignorados

ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) vem aplicando sanções e orientando empresas, mas a capacidade de fiscalização ainda corre atrás do tamanho do problema.


Coleta “por padrão”: o design que empurra você a aceitar tudo

Outro ponto pouco visível para o usuário é o chamado dark pattern — escolhas de design que induzem comportamentos. Alguns exemplos comuns:

  • botões de “ACEITAR TODOS OS COOKIES” em destaque, enquanto “personalizar” fica escondido
  • autorização de acesso a contatos, câmera e localização embutida num fluxo rápido de uso
  • cadastros que não deixam prosseguir se você não marcar certas permissões

O resultado é que, mesmo com leis mais rígidas, a experiência do usuário é construída para facilitar a coleta máxima de dados, e não para protegê-los.


Vazamentos e golpes: quando a privacidade vira questão de segurança

Se antes a preocupação com privacidade parecia abstrata, a realidade dos últimos anos no Brasil tratou de torná-la concreta. Casos de:

  • vazamento de grandes bases de dados (CPFs, telefones, endereços, histórico de crédito)
  • golpes por WhatsApp, SMS e ligações personalizadas, usando dados reais da vítima
  • uso de informações vazadas para abrir contas, fazer empréstimos ou clonagem de cartões

Mostram que não se trata apenas de “anúncio chato” — a exposição de dados se traduz em prejuízo financeiro e emocional.

“Cada novo vazamento amplia a superfície de ataque para criminosos. Eles cruzam bancos de dados e constroem abordagens altamente personalizadas”, explica um especialista em cibersegurança.


O que o usuário comum pode fazer hoje

Nenhuma ação individual substitui a necessidade de regulação e fiscalização, mas algumas medidas reduzem significativamente a exposição:

  • Revisar permissões de aplicativos no celular (especialmente localização, microfone, câmera e contatos).
  • Evitar login por redes sociais (“Entrar com Facebook/Google”) sempre que possível.
  • Criar e-mails separados para cadastros, newsletters e serviços sensíveis (banco, saúde).
  • Usar autenticação em dois fatores em e-mail, redes sociais e bancos.
  • Desconfiar de formulários que pedem dados demais para serviços simples.
  • Pesquisar o nome da empresa + “LGPD”, “privacidade”, “reclamações” antes de entregar dados sensíveis.

São soluções parciais, mas ajudam o usuário a sair do modo “aceitar tudo sem ler”, que ainda é o padrão na maior parte dos casos.


O futuro da privacidade: direito fundamental ou produto de luxo?

À medida que inteligência artificial, internet das coisas e biometria se tornam comuns, a fronteira entre “vida online” e “vida offline” praticamente desaparece. Câmeras inteligentes, reconhecimento facial em espaços públicos, carros conectados, relógios que monitoram saúde: tudo gera dados.

A discussão que se coloca para os próximos anos é simples e profunda:

  • Privacidade será tratada como um direito básico, garantido e fiscalizado,
    ou
  • se tornará um produto de luxo, acessível apenas a quem pode pagar por serviços mais seguros, equipamentos mais caros e soluções de proteção avançadas? Teste IPTV

No meio desse debate, o usuário comum segue, muitas vezes, aceitando termos que não leu, clicando em botões que não entende — e alimentando sistemas que lucram justamente com seu desconhecimento.

Tiago da Silva Candido

Colunista de portais como Correio Braziliense, Tonafama, F5 online e Imprensa e Midia e mais 1500 sites.
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