Coluna Rodrigo Teixeira

Publicitário muda vidas pelo social

André Melo é responsável para criar uma ONG em uma das comunidades mais pobres e violentas do Rio de Janeiro

Nascido no bairro do Riachuelo, zona norte do Rio, o jovem André Melo não poderia imaginar como sua vida se transformaria. Nunca iria imaginar que atravessaria a Linha Amarela, uma das principais vias expressas da cidade, para mudar o futuro de muita gente.

Ele saiu do Riachuelo e foi parar em Jacarepaguá, zona oeste da cidade. “Casei cedo, o objetivo era de fato construir uma família e dar passos largos na carreira, já que estaria mais perto do escritório”, lembra.

O tempo passou e se tornou pai de dois meninos.

Começou a trabalhar em shoppings centers e aprendeu de tudo um pouco. Foi de boy a assistente de marketing em 1 ano. Se apaixonou pela área e fez dela sua profissão. Os anos se passaram, se formou em publicidade e resolveu mergulhar de vez nesse mercado.

André achou que ali era seu lugar e que sua vida profissional iria deslanchar de vez. Porém, os problemas foram se acumulando e o estresse da profissão acabou lhe causando uma depressão. Precisou se afastar de suas atividades e pouco tempo depois acabou sendo demitido.

Nove anos depois ele voltaria para o shopping que o projetou, voltando para o marketing, e lá ficou por mais cinco anos. Mas chegou à conclusão que ali não era mesmo o seu lugar.

E foi em uma das campanhas feitas neste shopping que ele descobriu sua real vocação. “Através de uma campanha de Natal que organizamos, onde produzimos árvores e mesas que foram assinadas por personalidades, e que teriam itens a serem doados, como leite, fraldas, comida, dentro outros, meu chefe pediu que procurasse um local para as doações, foi aí que tive o primeiro contato com um projeto social”, conta André.

Foi nesse Natal que o clique do serviço social virou. Ele não só doou, como começou a frequentar o projeto, localizado na Cidade de Deus. “Fui visitar o projeto e me apaixonei. Virei voluntário e assumi a parte de comunicação. Só por ser um lugar extremamente vulnerável em todos os sentidos, onde as pessoas viviam em barracos, em cima de um brejo (região que carregava o nome da localidade), chorava todas as vezes que chegava em casa”, conta Melo emocionado.

Começava ali um estudo mais completo, e complexo, sobre a vida das pessoas que moravam na região. Tudo isso, somado a uma revolta contida, pois não conseguia entender como existia tanta pobreza a menos de um quilômetro de um dos bairros mais nobres da cidade, a Barra da Tijuca.

Mas como sua própria vida não foi simplesmente ‘fácil’, pois teve que batalhar muito para conquistar tudo o que teve, e sua família também, ele entendia que as pessoas daquela região não precisavam somente de doações físicas, como dinheiro, alimentos e coisas similares, mas também precisavam de evolução. De motivação para crescerem sozinhos e conquistarem seus próprios caminhos.

André viu que eles precisavam de comida no prato, mas também precisavam de cultura, esporte, educação, saúde e muito mais. Foi pensando nisso tudo que nasceu a sua ONG, a Nóiz. Ele encontrou uma forma de contribuir com a comunidade ajudando não somente a sanar a fome do corpo, mas também a da alma.

E o nome escolhido foi inspiração em uma música que ouviu. Achou curto, simples, direto e forte e que a comunidade iria entender de forma clara. “Estava na academia escutando uma música do Emicida, que se chama Nóiz, e pensei; é isso, é sonoro, é curto, é forte, a comunidade vai entender. Liguei às 6h da manhã para 3 outros amigos, criamos a ONG e no final de semana já tínhamos a marca e camisas. E na segunda já estávamos dentro da comunidade trabalhando”, revela.

Ele busca força em seus dois filhos, no mais velho, hoje com 20 anos de idade, e no caçula, de apenas 9, que está no espectro autista. Isso o ajuda entender ainda mais outros tipos de necessidades que pais de crianças especiais possam precisar enfrentar no dia a dia. André levou a sua realidade para a comunidade e descobriu que poderia contribuir muito também com essa causa.

A Nóiz começou com um barraco e hoje tem sua própria sede, na comunidade. E leva diariamente educação, saúde, esporte, cultura e assistência social para todas as pessoas que praticamente não tinham acesso a nada. Pessoas que eram esquecidas pelo Estado.

“A Nóiz nasceu como projeto e virou ONG rapidamente. O trabalho, ainda no barraco, foi ganhando projeção e reconhecimento da comunidade, até que um prédio de 2 andares foi oferecido. E era tudo que queria. Continuar a atender as pessoas do Brejo, mas também, de outros territórios, agora numa área mais central”, explica André.

Ele ainda escuta todo dia de várias pessoas que quem mora na favela é vagabundo e ficam perguntando o que ele faz por lá. Uns chegam a dizer que ele ‘defende’ bandido, mas ele não liga para nada disso, continua com a cabeça erguida realizando seu trabalho.

“As pessoas não reconhecem o que fazemos como trabalho, e sim como algo pontual. Mas não, é uma empresa, que tem obrigações, que deve respostas, que têm contas para pagar e muita gente para cuidar. São 200 crianças e 400 famílias diretas e indiretamente”, relata o publicitário.

André lembra que não faz nada sozinho. “Tenho pessoas chaves e fortes ao meu lado. A gente precisa se apoiar o tempo todo e em todos os sentidos. Ninguém imagina o quão é difícil manter uma estrutura como essa”, diz.

E termina dizendo que todos os seus sonhos estão ligados à ONG. “A Nóiz é o que faz meus olhos brilharem, as conquistas, as pessoas, cada abraço na rua, cada pedido e cada ajuda realizada. É isso que quero viver”, finaliza.

Rodrigo Teixeira

Repórter com mais de 13 anos de carreira. Formado em jornalismo pela Estácio de Sá e pós graduado em Metodologia do Ensino Superior pela Escola do Legislativo do Estado do Rio de Janeiro (Elerj). Com experiência em diversos segmentos do jornalismo, entre eles, no meio corporativo, artístico, e no poder público. Com passagem pelas redações dos maiores portais de internet do país, inclusive á produziu conteúdo para o portal iG. Experiência de gestão, redação e projetos especiais para o on-line dos Jornais O Dia e Meia Hora. Web Repórter da Rede TV, na sucursal do Rio de Janeiro e correspondente do programa "Tô na Fama", da Rede TV do Tocantins.

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