Coluna Faustino da Rosa Júnior - Nerd de NegócioNerd de Negócio

John Ternus aposta no hardware para levar a Apple à era da inteligência artificial

O novo CEO estreou com o primeiro iPhone dobrável, uma Siri reconstruída com IA e um plano de corte de custos. A estratégia coloca o aparelho no centro da disputa e transforma a privacidade em ativo regulatório num momento em que reguladores apertam o cerco sobre os laboratórios de IA.

 

Em 1º de setembro de 2026, John Ternus assumiu o comando da empresa mais valiosa do mundo ocidental. A Apple encerrou ali uma era de 15 anos. Tim Cook, que sucedeu Steve Jobs em agosto de 2011, passou a presidente executivo do conselho de administração. Deixou para o sucessor uma companhia avaliada em mais de US$ 4 trilhões, contra cerca de US$ 350 bilhões quando assumiu. No primeiro ano fiscal de Cook, a receita foi de US$ 108 bilhões.

A sucessão foi planejada, anunciada em abril e aprovada por unanimidade pelo conselho. A escolha do nome diz muito sobre a leitura que a Apple faz do momento. Ternus é engenheiro mecânico de formação e homem de produto por trajetória. Entrou na Apple em 2001, depois de passar pela Virtual Research Systems, e construiu praticamente toda a carreira na engenharia de hardware. Foi vice-presidente da área a partir de 2013 e vice-presidente sênior de 2021 a 2026. Seu nome está ligado ao iPhone, ao iPad, ao Mac, ao Apple Watch, aos AirPods e ao Vision Pro. Em janeiro de 2026, recebeu também a supervisão do time de design industrial.

Cook era um mestre das operações, da cadeia de suprimentos e da diplomacia corporativa. Ternus é um engenheiro. A Apple trocou o perfil do comandante no exato momento em que a indústria de tecnologia atravessa a maior disputa tecnológica desde a internet.

A estreia: dobrar o iPhone

A primeira apresentação de Ternus como CEO, no evento de setembro, trouxe o iPhone Duo, primeiro smartphone dobrável da marca. A Apple chegou a esse formato anos depois de Samsung, Google e fabricantes chineses, fiel ao seu padrão histórico de entrar tarde em categorias e tentar redefini-las.

O evento teve outra marca simbólica: pela primeira vez em vários anos, a Apple apresentou somente modelos Pro do iPhone. A decisão concentra a linha nos aparelhos de maior margem e reforça o posicionamento premium num momento de pressão sobre custos.

Em 14 de setembro, a empresa liberou o iOS 27, com a nova Siri baseada em inteligência artificial integrada ao sistema. A assistente virtual era o ponto mais vulnerável da Apple na corrida da IA. John Giannandrea, que comandava a estratégia de aprendizado de máquina e IA, anunciou sua aposentadoria na primavera americana de 2026. A reconstrução da Siri é o primeiro grande teste da nova liderança na área.

A escolha estratégica: o dispositivo

A mensagem do primeiro mês de Ternus é coerente. A Apple escolheu competir na inteligência artificial pelo terreno que domina: o dispositivo.

OpenAI, Google, Anthropic e Meta disputam quem tem o modelo mais capaz. Setembro registrou oito lançamentos de modelos só por OpenAI e Anthropic em 29 dias. A Apple disputa outra posição: o controle do aparelho onde a IA roda, da interface pela qual o usuário a acessa e do ecossistema que conecta todos os dispositivos da pessoa.

Essa estratégia tem lógica econômica. O mercado de modelos caminha para a comoditização, com desempenhos convergentes e preços em queda por tarefa. O hardware, a integração entre chip, sistema e aplicativos e a base instalada de mais de 2 bilhões de dispositivos ativos formam barreiras mais difíceis de replicar. A reorganização interna confirma a prioridade: em abril de 2026, Johny Srouji, responsável pelos chips próprios da Apple, foi nomeado chief hardware officer.

O risco também é claro. Se a experiência de IA mais valiosa para o usuário estiver nos modelos de fronteira, e esses modelos estiverem nas mãos de outras empresas, a Apple corre o risco de se tornar a embalagem premium de uma inteligência construída por terceiros.

Eficiência como primeira marca de gestão

Com menos de um mês no cargo, Ternus já discute mudanças internas. Segundo a Bloomberg, o novo CEO quer uma empresa mais eficiente, com menos camadas de gestão, e estuda estratégias de redução de custos.

O movimento acompanha uma tendência das big techs. Meta, Google e Amazon reduziram níveis hierárquicos nos últimos anos para acelerar decisões e liberar recursos para investimentos em IA. Na Apple, a mudança tem significado adicional. A companhia de Cook se destacou pela excelência operacional e pela disciplina financeira. A de Ternus busca liberar recursos para pesquisa e engenharia e aceita riscos que o mercado raramente associou à empresa na última década.

A dúvida dos investidores é se o mercado vai tolerar custos maiores de pesquisa e experimentação sem retorno imediato. A Apple de Cook entregou previsibilidade. A de Ternus vai precisar entregar inovação visível para justificar o novo perfil.

Privacidade como ativo regulatório

Há uma dimensão da estratégia da Apple pouco discutida e cada vez mais valiosa: a privacidade funciona como ativo regulatório.

Processar dados no próprio aparelho, em vez de enviá-los a servidores remotos, reduz drasticamente a exposição a leis de proteção de dados, como a LGPD brasileira e o GDPR europeu. Menos dados transferidos significa menos operações de tratamento sujeitas a bases legais, menos transferências internacionais a justificar e menos superfície para incidentes de segurança.

O contexto de setembro amplia esse valor. A FTC abriu investigação sobre os riscos de agentes autônomos de OpenAI e Anthropic. Agentes de IA invadiram sistemas do governo australiano e da plataforma Hugging Face. A Flórida pediu na Justiça restrições ao desenvolvimento de novos modelos. Uma IA que roda localmente, com acesso limitado a sistemas externos, carrega um perfil de risco jurídico muito menor.

Para clientes corporativos e governos, esse fator pesa tanto quanto alguns pontos de desempenho em testes. Bancos, hospitais, escritórios de advocacia e órgãos públicos operam sob regras rígidas de sigilo. Uma IA que processa informações sensíveis dentro do aparelho resolve parte dos problemas de conformidade antes que eles surjam.

A frente regulatória da própria Apple

A Apple tem suas próprias batalhas regulatórias. Na União Europeia, foi designada como gatekeeper pela Lei de Mercados Digitais e recebeu em 2025 uma multa de 500 milhões de euros por restringir desenvolvedores de informar usuários sobre ofertas fora da App Store. O controle do ecossistema, que sustenta a estratégia de IA no dispositivo, é exatamente o alvo dos reguladores de concorrência.

Essa tensão vai acompanhar a gestão de Ternus. Quanto mais a Apple integrar a IA ao sistema operacional e aos aplicativos próprios, mais atenção receberá de autoridades preocupadas com autopreferência e fechamento de mercado. Integrar com profundidade e manter a plataforma aberta a concorrentes é o equilíbrio que o novo CEO precisa encontrar.

O desafio da infraestrutura

A estratégia do dispositivo tem um limite técnico. Os modelos mais capazes dependem de grandes centros de dados. O contrato de US$ 35 bilhões da Anthropic com a Lambda, para um data center de cerca de 350 megawatts, dá a dimensão da escala exigida.

A Apple precisa entregar uma experiência competitiva sem abrir mão do modelo de privacidade que a diferencia. A solução provável é híbrida: tarefas cotidianas no aparelho e tarefas complexas em servidores próprios com garantias reforçadas de privacidade, além de parcerias pontuais com laboratórios externos. Cada parceria, porém, reabre a questão da dependência.

Os indicadores de Ternus

O mercado vai avaliar o novo CEO por três indicadores nos próximos trimestres.

O primeiro é a distância entre a nova Siri e os assistentes concorrentes. Se a Siri do iOS 27 alcançar o nível de utilidade dos agentes que lideram o mercado, a estratégia do dispositivo ganha força. Se ficar atrás, a pressão por parcerias aumenta.

O segundo é a adesão ao iPhone Duo, especialmente em mercados sensíveis a preço, como o Brasil, onde a carga tributária eleva o custo dos aparelhos premium a patamares muito acima dos praticados nos Estados Unidos.

O terceiro é o alcance dos cortes internos. Se atingirem áreas de inteligência artificial, sinalizarão uma aposta concentrada no hardware. Se pouparem a IA e cortarem camadas administrativas, indicarão uma realocação de recursos para a corrida tecnológica.

Conclusão

Tim Cook transformou a Apple numa máquina de eficiência e de geração de caixa. Ternus herda essa máquina num momento em que a vantagem competitiva da tecnologia migra para a inteligência artificial. Sua aposta é que o hardware, a integração e a privacidade formam uma posição mais sólida do que a liderança em modelos.

A aposta tem fundamentos econômicos e jurídicos consistentes. A dúvida que vai definir a gestão de Ternus é se o usuário de 2030 vai escolher seu aparelho pela qualidade da inteligência que roda nele ou pela marca que está gravada na tampa.

Faustino da Rosa Júnior - Nerd de Negócio

A presente coluna é presidida pelo Dr. Faustino Júnior (@faustinojunior.adv.br). Faustino da Rosa Junior é Advogado Tributarista, Empreendedor Digital, Investidor Imobiliário, Escritor Best-Seller e Criador do Método Nerd. Possui mas de dez milhões de seguidores nas redes sociais. São abordados temas atuais relacionados ao mundo dos negócios, da tecnologia, do direito, da medicina, de investimentos, de inovação, de entretenimento, de cultura pop, de economia, de política e de personalidades, sempre sob um olhar nerdístico.
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