Althera usa IA e telemedicina para escalar tratamento contra obesidade no Brasil
Healthtech fundada por Vander Valente combina atendimento médico remoto, protocolos clínicos, acesso facilitado a medicamentos e acompanhamento contínuo para reduzir abandono em uma das maiores frentes de saúde pública do país

A obesidade se tornou uma das maiores oportunidades e, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios do setor de saúde no Brasil. Em um país onde mais da metade da população vive acima do peso, segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, a demanda por tratamentos contínuos, acessíveis e clinicamente seguros cresce em ritmo acelerado.
É nesse cenário que a Althera, healthtech fundada por Vander Valente, passou a atuar com um modelo que combina telemedicina, inteligência artificial, protocolos médicos estruturados e acesso facilitado a medicamentos. Em apenas três meses de operação, a plataforma já registrou mais de 15 mil pessoas interessadas em informações e serviços ligados ao tratamento da obesidade.
A tese da empresa é simples: o combate à obesidade não falha apenas por falta de vontade do paciente. Falha, muitas vezes, por excesso de barreiras. Alto custo dos medicamentos, dificuldade de acesso a médicos, pouca frequência no acompanhamento e falta de suporte nos efeitos colaterais estão entre os principais fatores que levam ao abandono do tratamento.
“Um dos principais obstáculos para manter um tratamento contra obesidade, hoje, é o custo dos medicamentos. Mas isso vai mudar com a queda de patentes e o desenvolvimento de novas drogas. O segundo grande obstáculo é o acesso ao médico mesmo”, afirma Vander Valente, CEO e sócio fundador da Althera.
A empresa nasce justamente para reduzir essas fricções. O modelo integra triagem digital, consulta médica remota, avaliação de exames, prescrição, acompanhamento contínuo e entrega domiciliar de medicamentos por farmácias parceiras. Para o paciente, a proposta é diminuir o desgaste de uma jornada que, no modelo tradicional, costuma ser fragmentada e cara.
“Esse tratamento precisa de acompanhamento contínuo e de ajustes mensalmente. Além dos efeitos colaterais ao longo do tempo. Então, o acesso ao médico, de maneira recorrente, é um problema considerável nos atendimentos tradicionais”, explica Vander.
Um dos pilares do negócio está na negociação com farmácias parceiras, que permite oferecer medicamentos com condições mais acessíveis. Em um mercado pressionado pelo custo das novas terapias para obesidade, essa frente é considerada estratégica para ampliar adesão e permanência.
“Temos parcerias com farmácias que oferecem a medicação com um custo um pouco mais acessível. Existiu todo um trabalho de negociação com as farmácias para que isso fosse possível”, diz o executivo.
Além da redução de custo, a Althera aposta na conveniência. Após a avaliação médica, o paciente pode receber a orientação para iniciar o tratamento em um ou dois dias, sem sair de casa. A medicação pode ser entregue diretamente no endereço informado ou comprada pelo próprio paciente, conforme sua escolha.
Mas o diferencial do modelo, segundo Vander, não está apenas na teleconsulta. Está na continuidade. Como a obesidade é uma doença crônica, o tratamento exige ajustes, monitoramento e contato frequente entre médico e paciente. É aí que a plataforma busca se diferenciar de serviços digitais que se limitam à consulta pontual.
“Tratar a obesidade leva muito mais que dois ou três meses, porque a obesidade é considerada uma doença crônica. Então, a adesão permite que o médico fique próximo desse paciente e, se ele passa mal com algum efeito colateral, já tem um acesso facilitado para mudar de medicação ou amenizar esses efeitos”, afirma.
A inteligência artificial entra nesse processo para organizar dados, apoiar a jornada clínica, agilizar triagens e tornar o acompanhamento mais eficiente. A tecnologia não substitui o médico, mas funciona como camada de apoio para reduzir gargalos, acompanhar sinais reportados pelos pacientes e facilitar a tomada de decisão dentro de protocolos definidos.
Para Vander, esse é um ponto central da operação. “A tecnologia entra para descomplicar a vida do paciente e para elevar o nível do rigor da atuação médica”, pontua.
O perfil dos usuários mostra a profundidade da demanda reprimida. Segundo o CEO, cerca de 70% das pessoas que procuram a plataforma e começam a preencher a avaliação estão em obesidade grau 1, 2 ou 3. Dentro desse grupo, 30% apresentam obesidade grau 3, considerada a forma mais grave da doença.
O dado ajuda a explicar por que a empresa enxerga espaço para crescimento. Parte relevante do público que chega à Althera nunca havia iniciado tratamento médico, justamente por dificuldade de acesso, custo ou medo de julgamento. A plataforma tenta atacar esses três pontos ao oferecer atendimento remoto, suporte contínuo e uma jornada menos burocrática.
“Esse é um perfil bem claro de quem procura a Althera”, afirma Vander.
A expansão da telemedicina após a pandemia também criou um ambiente mais favorável para modelos como esse. Ainda existe desconfiança, especialmente quando o assunto envolve saúde, medicamentos e atendimento online. Mas, segundo o CEO, a resistência tende a diminuir quando o paciente passa pela consulta e percebe que há acompanhamento real.
“Existe, sim, dúvidas das pessoas, se os tratamentos oferecidos são reais, se elas vão receber os cuidados que precisam, se não vão cair em um golpe”, comenta. “São dúvidas que são respondidas e, depois que elas passam pelas consultas com o médico, os receios vão embora e fica somente a vontade de seguir os tratamentos.”
A Althera também se posiciona em um momento de transformação no mercado global de obesidade. A chegada de novas medicações, a queda futura de patentes e o aumento da procura por acompanhamento especializado devem ampliar a demanda por soluções digitais capazes de combinar escala, segurança clínica e relacionamento contínuo.
Para o setor de saúde, o desafio será equilibrar tecnologia com responsabilidade médica. O mercado de obesidade movimenta uma cadeia que envolve médicos, laboratórios, farmácias, plataformas digitais, planos de saúde e pacientes em busca de resultados sustentáveis. Nesse ambiente, empresas que conseguirem reduzir custo, aumentar adesão e manter qualidade clínica devem ganhar relevância.
No caso da Althera, a aposta é que o tratamento da obesidade não seja visto como uma sequência de consultas isoladas, mas como uma jornada acompanhada. O paciente passa por questionários online, avaliação médica, envio de exames, prescrição, compra ou entrega de medicamentos e contato frequente com o médico para dúvidas, sintomas e ajustes.
“Paciente pergunta se pode fazer isso ou aquilo, se o que ele está sentindo é normal. E ter o médico ali sempre pronto para perguntas e respostas é crucial para o paciente se sentir bem cuidado”, destaca Vander.
Com uma estrutura enxuta e operação digital, a healthtech tenta ocupar um espaço entre a medicina tradicional e as novas demandas do consumidor de saúde. O paciente quer conveniência, mas também quer segurança. Quer acesso rápido, mas não quer se sentir abandonado depois da prescrição. Quer tecnologia, mas precisa confiar que existe um médico conduzindo o processo.
Essa combinação deve definir os próximos passos das healthtechs voltadas para doenças crônicas no Brasil. Em um país com milhões de pessoas acima do peso e dificuldades históricas de acesso a tratamentos de longo prazo, modelos integrados podem deixar de ser apenas uma alternativa prática para se tornar uma parte relevante da infraestrutura de cuidado.
Para Vander Valente, a Althera não vende milagre, nem tenta transformar obesidade em promessa de marketing. A proposta, segundo ele, é reduzir barreiras, ampliar acesso e manter o paciente acompanhado durante uma jornada que costuma ser difícil, longa e emocionalmente desgastante.
No fim, a tese da empresa é também uma tese de mercado: quem conseguir unir tecnologia, cuidado médico recorrente e acesso mais simples a tratamentos terá espaço em uma das áreas mais sensíveis e promissoras da saúde digital brasileira.









