Saúde

Implantes hormonais: Dra Ana Comin critica termo “chip da beleza” e defende uso com critério

Especialista em ginecologia e menopausa, Dra. Ana Comin afirma que o método pode ser uma alternativa para mulheres que não respondem bem a outras formas de reposição hormonal, mas alerta contra o uso estético e sem acompanhamento

 

Os implantes hormonais entraram no centro de uma discussão que mistura saúde feminina, redes sociais, promessas estéticas e medo. Popularizados de forma equivocada como “chip da beleza”, eles passaram a ser associados a emagrecimento, ganho de massa muscular e melhora da aparência. Para especialistas, porém, esse rótulo atrapalha o debate e desvia a atenção do ponto principal: quando bem indicado, o implante é apenas uma das formas possíveis de administrar hormônios.

A ginecologista, obstetra e especialista em menopausa Dra. Ana Comin defende que o primeiro passo para esclarecer o tema é abandonar a expressão “chip da beleza”. Segundo ela, o nome induz o público ao erro, tanto por sugerir uma tecnologia eletrônica inexistente quanto por associar o tratamento a benefícios estéticos.

“Os principais mitos seriam que o implante hormonal é um ‘chip de beleza’. Não é um chip, não tem nada de eletrônico”, afirma a médica. “Chip diz respeito a algo eletrônico, que não existe no implante hormonal.”

A confusão, segundo Dra. Ana, teria ganhado força depois que a apresentadora Hebe Camargo comentou publicamente sobre o tratamento hormonal que utilizava. Com o tempo, o termo foi apropriado pelo mercado e passou a ser usado em discursos ligados à beleza, emagrecimento e performance física, pontos que a médica considera inadequados quando o assunto é reposição hormonal.

“O uso de hormônios não é permitido com fins estéticos e, portanto, não é permitido o uso de implante hormonal para fins estéticos. Médicos que usam reposição hormonal para fins estéticos estão tendo atitudes antiéticas, é errado e é algo condenado também pelo Conselho Federal de Medicina”, alerta.

Apesar da polêmica, os implantes hormonais não são novidade. De acordo com Dra. Ana, eles surgiram nos Estados Unidos por volta de 1942, com o objetivo de funcionar como mais uma via de administração hormonal. Na prática, entram na mesma lógica de comprimidos, géis, adesivos, cremes ou anéis vaginais, com a diferença de oferecer liberação contínua da substância.

“O objetivo deles era criar mais uma via e que fosse de liberação hormonal contínua e sem picos”, explica.

Segundo a especialista, essa característica pode beneficiar pacientes que apresentam oscilações importantes ou dificuldades com tratamentos diários. Ainda assim, ela reforça que o implante não costuma ser a primeira opção na abordagem clínica.

“Implantes nunca são a primeira via de administração de hormônio para nós médicos. A gente sempre começa com via oral, adesivos, não se tem o hábito de indicar o implante logo como primeira opção”, diz.

A indicação, de acordo com Dra. Ana, costuma ocorrer quando a paciente já tentou outras formas de tratamento, mas não obteve resposta satisfatória ou teve dificuldade de adaptação. “Quando a paciente já fez uso do gel, já fez uso da via oral, do creme, da via vaginal e nenhum deles dá resultado, é complexo e cansativo para a paciente ficar usando duas vias”, afirma.

O método pode ser usado em contextos diferentes, como anticoncepção e reposição hormonal, sempre a depender da avaliação médica. Nos casos de reposição, a duração costuma variar entre seis e doze meses. Já determinados implantes anticoncepcionais podem durar até três anos.

A médica ressalta que a praticidade não deve ser confundida com indicação automática. O tratamento hormonal, por qualquer via, exige histórico clínico, exames, acompanhamento e ajustes ao longo do tempo. “A mulher precisa saber qual a melhor forma de fazer reposição hormonal para ela. Reposição hormonal não envolve você ver a paciente só uma vez por ano. Você a vê constantemente, porque existem acertos que devem ser feitos”, explica.

Entre os exames que devem fazer parte da avaliação antes de qualquer tratamento hormonal, Dra. Ana cita mamografia, ultrassom das mamas e exames laboratoriais. A decisão também precisa considerar sintomas, idade, histórico pessoal e familiar, riscos individuais e objetivos terapêuticos.

Para a especialista, o problema central não está no implante, mas no uso indiscriminado de hormônios, especialmente em doses elevadas e sem necessidade clínica. “A diferença é que os implantes para reposição hormonal são os implantes colocados por profissionais que sabem o que estão fazendo, que têm responsabilidade sobre a saúde”, afirma.

Ela reconhece que a reposição hormonal pode melhorar sintomas como indisposição, alterações do sono, queda da libido e perda de qualidade de vida em mulheres no climatério e na menopausa. Mas faz uma ressalva: não se trata de um atalho estético.

“O implante hormonal é uma força extra quando o estradiol baixou e o FSH subiu. Ajuda na pele boa, no cabelo saudável, mas, se você não faz os cuidados do dia a dia, não vai adiantar nada”, diz.

A repercussão sobre o tema aumentou em 2024, quando a Anvisa chegou a suspender temporariamente determinados implantes hormonais após denúncias e relatos de eventos adversos. Para Dra. Ana, o episódio foi marcado por um ambiente de desinformação e relatos sem comprovação adequada. “As pessoas não sabem em quem podem confiar e acabam perdidas, criando mais confusão na vida delas”, afirma.

Na avaliação da médica, o debate público ficou preso a dois extremos. De um lado, profissionais que rejeitam o método em qualquer circunstância. De outro, aqueles que banalizam a prescrição de hormônios e oferecem implantes sem avaliação adequada, muitas vezes com apelo estético.

“Nós temos hoje em nosso país duas situações. Médicos conservadores, que são bons, mas só aceitam um tratamento se sair em guideline, e não aceitam os implantes. Por outro lado, também existem outros profissionais que saem fazendo implante sem a devida avaliação, faltando conhecimento e, muitas vezes, para a estética das pessoas. São os dois extremos completamente errados”, avalia.

Para evitar riscos, Dra. Ana recomenda que pacientes busquem profissionais com formação sólida, experiência em menopausa e domínio de diferentes formas de reposição hormonal. Um alerta importante, segundo ela, é desconfiar de médicos que oferecem apenas implantes como solução.

A médica também orienta observar o tipo de comunicação feita nas redes sociais. Perfis que prometem emagrecimento, ganho muscular, rejuvenescimento ou transformação corporal devem acender um sinal de atenção. O foco, reforça, precisa ser saúde, sintomas e qualidade de vida.

“Os implantes hormonais são mais uma forma de entregar a reposição hormonal, apenas mais uma via de administração. Como temos cirurgias abertas, abdominais, vaginais, videolaparoscópicas e robóticas, seguindo a mesma lógica, a gente tem também vias de administrar hormônio. O implante é apenas mais uma via”, compara.

No fim, a discussão sobre implantes hormonais passa menos por demonizar ou defender o método de forma irrestrita, e mais por compreender a indicação correta. Para algumas mulheres, especialmente aquelas que não respondem bem a outras vias, ele pode ser uma alternativa. Para outras, não será necessário.

A mensagem da especialista é clara: não existe reposição hormonal segura sem individualização. O melhor tratamento não é o mais famoso nas redes, nem o mais vendido como novidade. É aquele indicado com base em sintomas, exames, histórico clínico e acompanhamento médico contínuo.

Thiago Michelasi

Thiago Michelasi é jornalista, assessor de imprensa e apresentador de TV. Atualmente é CEO do Tô Na Fama!, portal parceiro de conteúdo do IG e apresentador do Programa Tô Na Fama! em afiliadas da Rede TV!. Além disso é colunista no Cartão de Visita do R7, no IG Gente, no Meia Hora e de diversos outros portais além de já ter sido colunista também no Observatório dos Famosos do UOL. Siga Thiago Michelasi no Instagram: instagram.com/thiagomichelasi
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