Psicólogo Renan Santana explicaSaúde

POR QUE CASAIS APAIXONADOS PERDEM O DESEJO COM O TEMPO?

Por Renan Santana, psicólogo de casais e neurocientista

O que faz um casal que se ama, que construiu uma vida juntos, que segue se admirando e se escolhendo no cotidiano, olhar um para o outro e perceber que o desejo já não se apresenta com a mesma força de antes? A pergunta assusta, porque muita gente interpreta a queda do desejo como um sinal de que o amor desapareceu ou de que o relacionamento deu errado. Mas quando analisamos a questão com profundidade neurobiológica, clínica e cultural, percebemos que o fenômeno é muito mais comum, natural e complexo do que fomos ensinados a acreditar. O amor romântico criou a fantasia de que segurança, paixão, convívio e erotismo coexistiriam em harmonia permanente, como se fossem peças de um quebra-cabeça que se encaixam automaticamente. Só que o que vemos na prática é quase o oposto: quanto mais os casais se aproximam e constroem rotina, mais o desejo parece se distanciar. E isso acontece não por falta de amor, mas porque amor, desejo e intimidade são experiências diferentes, com funções diferentes e com bases neurobiológicas que nem sempre caminham na mesma direção.

O desejo é livre, impulsivo, curioso, orientado por adrenalina, noradrenalina e vias dopaminérgicas, que energizam o corpo para buscar, se aproximar e explorar o desconhecido. Ele precisa da alteridade, da diferença, da sensação de que o outro ainda guarda algo que não está completamente revelado. Já o amor, neurobiologicamente, está ligado a mecanismos de apego mediados por oxitocina e vasopressina, que promovem segurança, sensação de pertencimento, cuidado e continuidade. A intimidade, por sua vez, é o processo de conhecer o outro de verdade, atravessar a queda da idealização e conviver com o que há de mais real no outro. É exatamente nessa transição, tão necessária para a construção de um vínculo duradouro, que surge um paradoxo inevitável: tudo aquilo que fortalece o amor e o apego pode enfraquecer o erotismo. Amar aproxima; desejar exige um certo distanciamento simbólico. O vínculo pede previsibilidade; o desejo depende de mistério. A intimidade busca transparência; o erotismo respira liberdade. Essa tensão estrutural é tão universal que a psicoterapeuta belga Esther Perel dedica boa parte de suas obras a mostrar como a convivência prolongada e a fusão emocional, quando não são bem administradas, sufocam o espaço psíquico onde o desejo é capaz de existir.

Na fase inicial do relacionamento, o cérebro opera em modo de conquista. A dopamina funciona como molécula de busca e não apenas de recompensa, mantendo o organismo em estado de alerta, de curiosidade, de euforia antecipatória. Cada encontro é marcado por reforço intermitente: às vezes a pessoa responde rápido, às vezes demora; às vezes está disponível, às vezes não; às vezes a expectativa se cumpre, às vezes frustra. É essa imprevisibilidade que mantém o desejo aceso, intenso e quase incontrolável. Com o passar do tempo, porém, o estímulo se torna contínuo. A convivência aumenta, a intimidade se aprofunda, a previsibilidade se instala, a rotina se estabiliza. Do ponto de vista da análise do comportamento, ocorre o fenômeno da saciação: aquilo que antes era intermitente e excitante se torna constante e econômico. E o organismo, sempre eficiente, reduz a liberação dopaminérgica, passando a operar com substâncias que sustentam o vínculo, mas não necessariamente o erotismo. O amor aumenta, mas a euforia diminui. A paixão inicial, que era neuroquimicamente barata porque era automática, dá lugar a um tipo de desejo que exige investimento consciente, energia, intenção e criatividade. O problema é que a maioria dos casais espera que o desejo continue funcionando sozinho, com o mesmo impulso espontâneo da fase inicial, sem entender que agora ele precisa ser cultivado.

Um dos fatores que mais diminuem o desejo é a fusão entre os parceiros. Quando o casal perde a distinção entre “eu” e “nós”, quando faz tudo junto, quando abandona vida própria, quando os gostos se confundem e um se adapta em excesso ao outro, a alteridade desaparece. E, sem alteridade, o desejo fica sem objeto. A convivência prolongada também se torna perigosa quando não há espaços individuais, porque o tédio emerge como um efeito colateral inevitável. Todo relacionamento longo exige aprender a conviver com algum grau de tédio, porque o amor romântico prometeu uma intensidade que a vida cotidiana não consegue sustentar. Nesse ponto, muitos casais interpretam o tédio como sinal de desamor, quando, na verdade, ele é apenas um subproduto natural da previsibilidade. Casais que não entendem isso se acomodam, deixam de investir, ignoram a necessidade de renovação simbólica e entram em um ciclo de convivência mecânica, sem vitalidade. É nesse vazio que algumas pessoas buscam fora da relação a sensação de estar vivo novamente — uma das engrenagens mais comuns da infidelidade emocional ou sexual.

O ressentimento é outro inimigo poderoso do desejo. Conflitos não resolvidos, mágoas acumuladas, agressões verbais, desrespeitos silenciosos e pequenas rupturas emocionais vão gerando no cérebro uma marca ambígua: aquela pessoa que deveria ser fonte de prazer também é fonte de dor. Quando o organismo não consegue classificar o parceiro como estímulo seguro, ele não relaxa. E o desejo só aparece em ambientes internos minimamente seguros. Não há erotismo onde o corpo está armado. Ciúme, insegurança e vigilância constante agravam essa confusão emocional: o parceiro deixa de ser alguém com quem se pode brincar, explorar, fantasiar, e passa a ser alguém que cobra, monitora e exige. O desejo precisa de liberdade; a insegurança cria aprisionamento.

A cultura também pesa. Regina Navarro Lins retrata muito bem como a moral sexual patriarcal limitou o prazer, especialmente o feminino, restringindo o erotismo a roteiros estreitos, previsíveis e cheios de culpa. O amor romântico reforça a ideia de fusão, posse, exclusividade e intensidade permanente, expectativas que sufocam o espaço necessário para que o desejo se movimente. Já Douglas K. Snyder, no campo da infidelidade, mostra como muitos casos de traição surgem não da falta de caráter, mas da tentativa de recuperar uma vitalidade perdida dentro de relações que se tornaram excessivamente fusionadas, estritamente previsíveis ou emocionalmente ressentidas. Não é à toa que tantos parceiros relatam: “Eu amo, mas não desejo”; “Admiro, mas não sinto vontade”; “Quero ficar, mas não sinto tesão”. O paradoxo não é falta de amor. É excesso de previsibilidade.

Mas se o desejo sofre com a rotina, a fusão e o ressentimento, o que fazer? A reconstrução do erotismo passa, inevitavelmente, pela reconstrução da individualidade. O desejo precisa de sujeito vivo. Precisa ver no outro alguém que se move, que cresce, que respira vida própria. Também precisa de fantasia, comunicação erótica, diálogo sobre curiosidades, vontades e limites. Quando o sexo se transforma apenas em dever conjugal ou em performance burocrática, ele perde sua função psíquica de brincar com o mistério. Casais que recuperam o desejo costumam recuperar também a capacidade de imaginar e de jogar. E isso não exige vulgaridade ou grandes transgressões; exige mais liberdade e menos vergonha. É preciso também romper o piloto automático: mudar ambientes, horários, narrativas, experiências. Investir em qualidade no lugar de obsessão por quantidade. Se a relação está emocionalmente ferida, é essencial tratar a ferida antes de tentar reacender o erótico. Não se reacende fogo em terreno encharcado de lágrimas não choradas.

A perda de desejo pode, sim, ser sintoma de algo maior. Aparece quando há controle excessivo, ciúme doentio, falta de admiração, desrespeito contínuo, invasão de privacidade, perda de identidade. Nesses casos, o desejo não está “preguiçoso”; está reagindo à falta de liberdade interna. Mas também é verdade que muitos casais se acomodam por inércia. Deixam de se conquistar, deixam de se provocar, deixam de se mover. Desejo é movimento. E movimento exige intenção. Em outros casos, o casal está satisfeito vivendo um amor companheiro, com pouca ou nenhuma expressão sexual, e não há sofrimento nisso. Cada relação tem uma ecologia própria; a pergunta nunca deve ser “como deveria ser?”, mas “há sofrimento aqui?”.

No fim das contas, o grande erro cultural foi fazer o mundo acreditar que amor e desejo caminham juntos, naturalmente, para sempre. Não caminham. Eles têm naturezas diferentes, funções diferentes e necessidades diferentes. Nada disso significa fracasso. Pelo contrário: significa que somos humanos. Quando paramos de interpretar a queda do desejo como sentença e passamos a entendê-la como fenômeno natural, influenciado por neuroquímica, cultura, rotina e dinâmica relacional, abrimos espaço para uma postura mais honesta e madura diante das relações. O desejo não é uma chama eterna concedida pelo destino. Ele é um organismo vivo, que reage ao ambiente, ao tempo, ao espaço e ao modo como os sujeitos se tratam. E quando olhamos para ele com a clareza necessária, deixamos de nos desesperar com sua oscilação e começamos a compreender o que realmente mantém um relacionamento vivo: não a euforia permanente, mas a escolha contínua de cultivar aquilo que, inevitavelmente, não se mantém sozinho.

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