Segurança digital exige escolhas: Rafael Rosado explica como empresas podem evitar prejuízos
Especialista mostra por que identificar ameaças e definir prioridades é mais eficaz do que buscar proteção absoluta.

A segurança digital deixou de ser uma preocupação exclusiva dos profissionais de tecnologia. Com ataques cada vez mais frequentes e empresas dependentes de sistemas conectados, proteger informações e manter operações funcionando tornou-se uma responsabilidade direta de gestores e executivos.
Para Rafael Andrade Rosado, especialista em cibersegurança com mais de 16 anos de experiência, o maior desafio não é eliminar todas as ameaças, mas identificar quais representam os maiores perigos e agir antes que provoquem prejuízos.
“Uma empresa não precisa viver com medo de cada ameaça digital, mas precisa conhecer suas fragilidades. A segurança começa quando os gestores entendem o que pode comprometer o negócio e estabelecem prioridades para evitar perdas maiores”, explica Rosado.
O alerta ganha importância diante de um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU), aprovado em outubro de 2026. Nenhuma das 239 organizações federais avaliadas conseguiu implementar integralmente as 56 medidas básicas de proteção analisadas pelo órgão.
No ambiente empresarial, o cenário também preocupa. Segundo o Allianz Risk Barometer 2026, os incidentes cibernéticos lideram pelo quinto ano consecutivo a lista de riscos globais, mencionados por 42% dos participantes.
Atualmente gerente de Arquitetura de SOC na Safetyware, Rafael Rosado trabalha com estruturas responsáveis por acompanhar ameaças, identificar atividades suspeitas e apoiar a proteção de ambientes corporativos.
Sua experiência inclui atuação na Deloitte Brasil e projetos para organizações dos setores financeiro, varejista, tecnológico e industrial.
Segundo o especialista, muitas empresas investem em ferramentas modernas sem conhecer completamente seus próprios sistemas, fornecedores e acessos.
“Não adianta instalar soluções sofisticadas se a organização desconhece quem acessa seus dados ou quais serviços são indispensáveis. Antes de investir, é necessário compreender onde estão as informações mais importantes e o que aconteceria se elas fossem comprometidas”, afirma.
O problema ultrapassa os computadores internos. Em 2025, um ataque envolvendo uma prestadora de serviços conectada ao sistema financeiro brasileiro resultou no desvio de mais de R$ 540 milhões, segundo informações da Polícia Civil de São Paulo.
O episódio demonstrou como acessos de terceiros podem comprometer operações de grande porte.
Outro desafio está na quantidade de vulnerabilidades identificadas diariamente. Somente em 2025, foram registradas mais de 48 mil falhas de segurança em softwares, aproximadamente 130 por dia.
Para Rosado, tentar resolver todas simultaneamente pode consumir recursos sem necessariamente melhorar a proteção dos processos essenciais.

“Uma falha considerada grave nem sempre representa o maior prejuízo. Às vezes, um problema aparentemente simples em um sistema de pagamentos pode ser muito mais perigoso. A prioridade precisa considerar as consequências para a operação”, destaca.
A previsão da Gartner aponta que os gastos mundiais com segurança da informação devem alcançar US$ 244 bilhões em 2026. Entretanto, aumentar despesas não significa automaticamente reduzir riscos.
Rosado ressalta que a combinação entre profissionais preparados, planejamento e tecnologia costuma produzir resultados mais consistentes.
“Segurança digital não é uma competição para descobrir quem compra mais ferramentas. Uma equipe capacitada, processos bem definidos e investimentos direcionados podem oferecer resultados superiores aos de uma estrutura cara, mas mal administrada”, observa.
Quando não é possível substituir imediatamente um sistema antigo, alternativas como limitar acessos, separar equipamentos da rede principal e intensificar o acompanhamento das atividades ajudam a reduzir a exposição.
Na avaliação de Rafael Rosado, a principal mudança necessária é cultural. Presidentes, diretores e gestores precisam participar das decisões sobre segurança, considerando os impactos financeiros e operacionais de possíveis incidentes.
Essa orientação acompanha referências internacionais, como o modelo de cibersegurança atualizado pelo NIST em 2024, que passou a dar maior destaque à governança.
“Quem administra uma organização precisa saber quanto tempo ela consegue permanecer parada, quais informações não podem ser perdidas e quanto está disposto a investir em proteção. A tecnologia apresenta os riscos, mas as decisões precisam envolver a liderança”, conclui.
Para o especialista, empresas e governos que adotam essa visão deixam de tratar a segurança digital apenas como uma despesa técnica e passam a reconhecê-la como parte essencial da continuidade de suas atividades.









