Quando mulheres ajudam a escrever as regras da inteligência artificial
Da Universidade de Barcelona às principais redes internacionais de pesquisa, a trajetória de Luíza de Paula Araújo mostra como a liderança feminina vem ampliando o debate sobre ética, direitos humanos e neurotecnologias.

Enquanto o mundo acompanha o avanço acelerado da inteligência artificial, outra revolução tecnológica cresce de forma mais silenciosa. Interfaces capazes de conectar diretamente o cérebro humano a computadores, dispositivos que interpretam sinais neurais e sistemas inteligentes que prometem ampliar capacidades cognitivas já deixaram de pertencer apenas à ficção científica. À medida que essas tecnologias se aproximam da realidade, cresce também uma pergunta inevitável: quem está ajudando a definir os limites éticos, jurídicos e humanos desse novo futuro?
Embora o debate frequentemente se concentre nos avanços técnicos, as transformações provocadas por essas tecnologias ultrapassam laboratórios e empresas de tecnologia. Questões relacionadas à privacidade mental, à autonomia, ao consentimento, à identidade pessoal e aos direitos fundamentais passaram a ocupar a agenda de governos, universidades e organismos internacionais. Afinal, quem responderá quando uma inteligência artificial influenciar uma decisão humana? Como proteger dados neurais capazes de revelar pensamentos, emoções ou padrões cognitivos? Que tipo de consentimento será suficiente quando a própria atividade cerebral passar a ser objeto de coleta, análise ou intervenção?
Essas perguntas revelam que o futuro da inovação não será definido apenas por engenheiros, cientistas da computação ou grandes empresas de tecnologia. Cada vez mais, juristas, filósofos, bioeticistas e cientistas sociais são chamados a participar da construção das regras que orientarão o desenvolvimento dessas ferramentas. O desafio deixou de ser apenas criar tecnologias cada vez mais sofisticadas. Tornou-se igualmente importante garantir que elas sejam desenvolvidas de forma compatível com os direitos humanos e os valores democráticos.
Mas existe outro aspecto dessa transformação que costuma receber menos atenção: quem ocupa esses espaços de decisão.
Apesar dos avanços das últimas décadas, a presença feminina na ciência continua marcada por profundas desigualdades. Segundo a UNESCO, apenas uma em cada três pessoas que atuam como pesquisadoras no mundo é mulher. Nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), elas representam cerca de 35% dos graduados, mas ocupam apenas 22% dos empregos nos países do G20 e correspondem a apenas uma em cada dez posições de liderança no setor.
A disparidade torna-se ainda mais evidente quando a pesquisa se transforma em inovação. Dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) mostram que, em 2024, as mulheres responderam por apenas 18% dos inventores identificados em pedidos internacionais de patentes. Embora esse percentual tenha crescido em relação à década anterior, ele revela que a participação feminina ainda permanece distante da paridade justamente nos espaços onde novas tecnologias são concebidas.
O cenário europeu segue a mesma tendência. Embora as mulheres representem quase metade dos concluintes de doutorado na União Europeia, elas ocupam apenas cerca de 30% das posições acadêmicas mais elevadas — percentual que cai para aproximadamente 20% nas áreas de ciência e engenharia. Entre dirigentes de universidades e instituições científicas, a presença feminina também permanece reduzida.
Esses números mostram que o principal desafio já não está apenas no acesso das mulheres à formação acadêmica, mas em sua permanência, progressão na carreira e participação nos espaços onde são produzidas as descobertas científicas e tomadas as decisões que orientarão o desenvolvimento tecnológico. É nesse contexto que se insere a trajetória da pesquisadora brasileira Luíza de Paula Araújo.
Pesquisadora da Universidade de Barcelona, Luíza atua na interface entre Direito, neuroética e inteligência artificial. Seu trabalho busca compreender como proteger a autonomia, a dignidade humana e os direitos fundamentais diante do avanço das interfaces cérebro-computador (Brain-Computer Interfaces – BCIs) e de outras neurotecnologias capazes de transformar a relação entre o cérebro humano e as máquinas.
Para ela, os desafios colocados por essas tecnologias ultrapassam a inovação em si. “Estamos vivendo um momento em que o desenvolvimento científico avança mais rapidamente do que a capacidade das leis e das instituições de acompanhá-lo. A inovação precisa caminhar ao lado da proteção da dignidade humana“, afirma.
Enquanto boa parte das pesquisas sobre interfaces cérebro-computador concentra-se no desenvolvimento técnico dessas tecnologias, Luíza dedica-se às perguntas que surgem depois que elas funcionam: quem controla os dados neurais? Quais limites devem orientar sua utilização? Como preservar autonomia, consentimento e dignidade humana quando dispositivos passam a interagir diretamente com a atividade cerebral?
Sua trajetória, entretanto, não começou na pesquisa em neuroética.
Antes de dedicar-se integralmente à vida acadêmica, Luíza construiu uma sólida carreira no sistema de Justiça brasileiro. Mestre em Direito Internacional pela Universidade de Lisboa, atuou por mais de uma década em instituições estratégicas, como o Tribunal de Justiça de Goiás, a Defensoria Pública da União e, posteriormente, o Tribunal Superior do Trabalho. Foi a experiência na aplicação concreta do Direito que despertou um interesse crescente pelas questões relacionadas à autonomia, à dignidade humana e à proteção dos direitos fundamentais, temas que, anos depois, passariam a orientar suas pesquisas sobre inteligência artificial e neurotecnologias.
Embora hoje desenvolva sua pesquisa na Universidade de Barcelona, sua trajetória acadêmica percorreu diferentes países e instituições. Após concluir o mestrado em Portugal, passou a integrar uma rede crescente de colaboração científica, apresentando pesquisas em conferências realizadas na Alemanha, Portugal, Croácia, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos e Brasil. Essa circulação internacional permitiu que suas investigações dialogassem com juristas, filósofos, bioeticistas, neurocientistas e especialistas em inteligência artificial, ampliando a dimensão interdisciplinar de seu trabalho.
Nos últimos anos, sua atuação deixou de se concentrar apenas na produção científica individual para assumir também uma dimensão de articulação internacional, reunindo pesquisa, organização acadêmica, cooperação científica e liderança em iniciativas voltadas à discussão dos impactos éticos, jurídicos e sociais das tecnologias emergentes.
É justamente essa trajetória internacional — construída em um ambiente ainda marcado pela baixa presença feminina em posições de liderança científica — que ajuda a compreender por que pesquisadoras como Luíza vêm ocupando um papel cada vez mais relevante em um dos debates mais importantes do século XXI.
Na Universidade de Barcelona, Luíza integra o projeto internacional de pesquisa DIGNITY, iniciativa que reúne especialistas de diferentes universidades para investigar a dignidade humana como um dos principais fundamentos normativos do Direito contemporâneo diante de desafios como inteligência artificial, bioética, migrações, reprodução assistida e outras transformações de grande impacto social. Também participa das atividades do grupo de pesquisa GEDECO, dedicado ao estudo das relações entre democracia, ética, direito e transformação social.
É nesse ambiente de intensa cooperação interdisciplinar que desenvolve sua pesquisa sobre os desafios jurídicos das neurotecnologias. Ao investigar temas como consentimento, autonomia, neurodireitos e governança da inteligência artificial, procura compreender de que maneira o Direito pode acompanhar o avanço científico sem abrir mão da proteção da pessoa humana.
Em sua perspectiva, a dignidade humana não pode permanecer apenas como um princípio abstrato presente em constituições e tratados internacionais. Ela precisa orientar decisões concretas sobre o desenho, a regulamentação e o uso das tecnologias capazes de interagir diretamente com a mente humana.
Essa atuação começou a ganhar projeção internacional em alguns dos principais fóruns dedicados à neuroética. Em 2025, um de seus estudos sobre consentimento e interfaces cérebro-computador foi selecionado para apresentação na reunião anual da International Neuroethics Society (INS), realizada em Munique, Alemanha. O trabalho recebeu destaque entre as pesquisas apresentadas durante o encontro e foi posteriormente incluído na edição especial da AJOB Neuroscience (American Journal of Bioethics – Neuroscience), periódico oficial da sociedade científica, que reuniu os resumos selecionados do congresso. A pesquisa completa encontra-se em processo de publicação em periódico científico da área.
Embora represente apenas uma etapa do processo de produção científica, esse reconhecimento possui significado especial no ambiente acadêmico internacional. A reunião anual da International Neuroethics Society é considerada um dos principais espaços de discussão sobre os impactos éticos, jurídicos e sociais das neurotecnologias, reunindo pesquisadores responsáveis por influenciar parte importante da agenda científica mundial nesse campo.
No ano seguinte, sua pesquisa voltou a integrar a programação da sociedade científica durante o encontro realizado na Universidade de Stanford, na Califórnia. A participação em duas edições consecutivas da principal conferência internacional da área consolidou sua inserção em uma rede de especialistas dedicada a discutir como o avanço das neurotecnologias poderá transformar conceitos tradicionais de autonomia, responsabilidade, identidade e direitos fundamentais.
Sua inserção internacional também foi ampliada com a participação na Oxford Winter Neuroethics School (OWNS), programa promovido pela Universidade de Oxford que reúne pesquisadores de diferentes países para discutir os desafios éticos, jurídicos e sociais relacionados às neurotecnologias.
A consolidação dessa trajetória acompanha uma mudança em sua própria atuação acadêmica. Se, nos primeiros anos, o foco esteve concentrado principalmente na produção científica, hoje seu trabalho também envolve conectar pesquisadores, promover o diálogo interdisciplinar e criar oportunidades de cooperação internacional entre universidades e grupos de pesquisa.
Esse movimento tornou-se ainda mais evidente em dezembro de 2024, quando Luíza foi anunciada como a primeira Embaixadora na Espanha da Societas Aperta Feminarum in Iuris Theoria (SAFI), organização acadêmica internacional dedicada ao fortalecimento da presença feminina na teoria e na filosofia do Direito.
A função vai além da representação institucional. Como embaixadora, passou a estimular redes internacionais de colaboração entre pesquisadoras, aproximar universidades, incentivar a participação feminina em projetos científicos e desenvolver iniciativas voltadas à construção de ambientes acadêmicos mais inclusivos e colaborativos.
Foi nesse contexto que passou também a idealizar e coordenar encontros científicos internacionais voltados à promoção do diálogo entre pesquisadoras de diferentes países. Em 2026, co-coordenou, na Universidade de Barcelona, o workshop internacional “La dignidad de las mujeres en la sociedad liberal”, reunindo especialistas de diferentes instituições para discutir igualdade, direitos fundamentais e os desafios éticos e jurídicos das transformações contemporâneas. O evento integrou as atividades dos projetos DIGNITY e GEDECO, em colaboração com a SAFI, fortalecendo a cooperação científica entre pesquisadoras europeias e latino-americanas.
A atuação terá continuidade nos próximos meses. Em setembro, Luíza coordenará, em parceria com a SAFI, o workshop internacional “Narrating Dignity, Claiming Recognition: Women’s Voices Across Time”, reunindo pesquisadoras das áreas de Direito, Filosofia, Bioética e Teoria Política para discutir como as vozes femininas contribuíram, ao longo da história, para a construção dos conceitos de dignidade, reconhecimento e justiça. Mais do que um encontro acadêmico, a iniciativa busca fortalecer redes internacionais de colaboração entre mulheres pesquisadoras e ampliar sua participação em debates estratégicos para o futuro das democracias e das tecnologias emergentes.
Ao reunir universidades, conectar especialistas de diferentes países e criar espaços para novas colaborações científicas, Luíza passou a exercer um papel que ultrapassa a pesquisa individual. Sua atuação evidencia uma transformação que vem ocorrendo silenciosamente em diversas áreas do conhecimento: mulheres deixam de ocupar apenas o lugar de participantes da produção científica para assumir funções de coordenação, articulação e liderança em redes internacionais de pesquisa.

A construção dessa trajetória, entretanto, está longe de ser simples. Desenvolver uma carreira científica internacional exige muito mais do que excelência acadêmica. Significa competir por financiamentos altamente seletivos, adaptar-se a diferentes culturas institucionais, construir redes internacionais de colaboração e manter uma produção científica consistente em um ambiente cada vez mais competitivo.
Para muitas mulheres, esse percurso ainda inclui obstáculos adicionais. A maternidade, a distribuição desigual das responsabilidades familiares, a menor presença feminina em posições de liderança e estruturas acadêmicas que nem sempre contemplam essas realidades fazem com que a permanência na carreira científica continue sendo um desafio em diferentes partes do mundo.
Ao explicar sua aproximação com a SAFI, Luíza recorda que uma das iniciativas que mais a sensibilizou foi justamente o apoio oferecido pela organização para que mães pesquisadoras pudessem participar de conferências internacionais.
“Como mãe, essa iniciativa me tocou profundamente. Percebi que pequenas mudanças institucionais podem transformar completamente a trajetória de uma pesquisadora.”
Segundo ela, medidas aparentemente simples podem determinar quem consegue apresentar uma pesquisa, estabelecer novas colaborações internacionais, disputar editais altamente competitivos e permanecer na carreira científica.
O episódio ilustra um desafio frequentemente invisível. Apoio à participação em eventos científicos, reconhecimento dos impactos da licença-maternidade sobre a produtividade, flexibilidade institucional e mecanismos de suporte aos cuidados familiares não representam privilégios. São condições concretas para que mais mulheres permaneçam na ciência e possam alcançar posições de liderança.
Essa discussão, entretanto, vai além da igualdade de oportunidades.
Para Luíza, ampliar a presença feminina na ciência significa também ampliar a diversidade de perspectivas presentes nas decisões que definirão o desenvolvimento das tecnologias mais transformadoras das próximas décadas.
Na avaliação da pesquisadora, os grandes desafios tecnológicos do século XXI dificilmente poderão ser enfrentados por uma única área do conhecimento. Questões relacionadas à inteligência artificial, às interfaces cérebro-computador e à proteção da autonomia humana exigem diálogo permanente entre Direito, Bioética, Filosofia, Neurociência, Ciências Sociais, Saúde e Políticas Públicas.
Isso se torna ainda mais relevante em áreas como a inteligência artificial e as neurotecnologias, nas quais decisões tomadas hoje poderão influenciar a forma como bilhões de pessoas viverão, trabalharão, aprenderão, se comunicarão e exercerão seus direitos nas próximas décadas. Sistemas de inteligência artificial podem reproduzir preconceitos presentes nos dados que os alimentam. Interfaces cérebro-computador prometem devolver movimentos a pessoas com deficiência, ampliar capacidades cognitivas e transformar a medicina, mas também levantam questões inéditas sobre privacidade mental, autonomia, identidade e liberdade de decisão.
Para Luíza, a pergunta central já não é se essas tecnologias farão parte da vida cotidiana, mas sob quais princípios éticos, jurídicos e democráticos elas serão desenvolvidas e utilizadas.
O interesse por essas discussões também vem ultrapassando os ambientes acadêmicos. Recentemente, Luíza concedeu uma entrevista à GOCOM Radio, emissora irlandesa dedicada à promoção da diversidade cultural e da inclusão social, abordando os desafios éticos e jurídicos da inteligência artificial e das neurotecnologias, bem como a importância da participação das mulheres na construção das tecnologias e das políticas que moldarão o futuro. Com transmissão prevista para os próximos meses, a entrevista evidencia como debates antes restritos aos círculos científicos vêm conquistando espaço no cenário internacional e despertando o interesse de públicos cada vez mais diversos.
Não é por acaso, essas questões permanecem no centro de sua pesquisa. Ao investigar temas como dignidade humana, consentimento, neurodireitos e governança da inteligência artificial, Luíza procura compreender de que forma o Direito pode acompanhar o avanço das tecnologias emergentes, contribuindo para que a inovação caminhe lado a lado com a proteção da autonomia, da dignidade e dos direitos fundamentais.
Sua atuação ultrapassa a produção acadêmica. Ao integrar projetos internacionais, organizar encontros científicos, colaborar na avaliação de pesquisas, conectar especialistas de diferentes países e promover iniciativas voltadas à ética, aos direitos humanos e à liderança feminina, Luíza representa uma geração de pesquisadoras que combina excelência científica, compromisso social e cooperação internacional.

Essa trajetória também revela uma transformação mais ampla. Durante muito tempo, as mulheres lutaram para conquistar espaço nas universidades e nos laboratórios. Hoje, o desafio vai além do acesso. Trata-se de garantir presença nos ambientes onde são definidos os rumos da ciência, da inovação e das políticas públicas.
A crescente participação feminina em áreas estratégicas não amplia apenas a diversidade dentro das instituições científicas. Ela amplia também a diversidade de perspectivas capazes de orientar o desenvolvimento das tecnologias que moldarão o futuro da humanidade. Em temas como inteligência artificial, neurotecnologias e bioética, essa pluralidade deixa de ser apenas uma questão de representatividade para se tornar uma condição essencial para a construção de soluções mais responsáveis, inclusivas e comprometidas com os direitos humanos.

Ainda assim, os desafios permanecem. A experiência de Luíza demonstra que talento e dedicação são indispensáveis, mas nem sempre suficientes. Permanecer na ciência exige acesso a oportunidades, financiamento, redes internacionais de colaboração e instituições capazes de reconhecer que maternidade, cuidado e vida acadêmica não são dimensões incompatíveis, mas partes inseparáveis da trajetória de milhares de pesquisadoras em todo o mundo.
Mais do que contar a história de uma pesquisadora brasileira, essa trajetória revela uma transformação em curso. À medida que inteligência artificial, neurotecnologias e outras inovações passam a redefinir a forma como a sociedade vive, trabalha e se relaciona, cresce também a necessidade de profissionais capazes de conectar conhecimento científico, reflexão ética e proteção dos direitos humanos.
É nesse contexto que mulheres pesquisadoras vêm conquistando espaço em redes internacionais de pesquisa e contribuindo para um debate que ultrapassa fronteiras, disciplinas e gerações. A presença feminina nesses ambientes não representa apenas um avanço em termos de igualdade. Ela amplia as possibilidades de que as tecnologias do futuro sejam concebidas a partir de uma diversidade maior de experiências, valores e perspectivas.
Porque, no futuro que começa a ser construído agora, talvez a pergunta mais importante já não seja apenas o que a tecnologia será capaz de fazer. Quanto mais diversas forem as vozes presentes na construção da ciência, maiores serão as possibilidades de que as tecnologias do futuro reflitam não apenas inovação, mas também justiça, inclusão e responsabilidade.









