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Vosoritide no SUS pode redefinir tratamento de crianças com acondroplasia no Brasil

Consulta pública com mais de 14 mil contribuições colocou a incorporação do medicamento no centro do debate sobre doenças raras. Em jogo estão acesso, custo, autonomia e a capacidade do SUS de responder a terapias de alto impacto

 

A eventual incorporação do vosoritide ao SUS pode representar uma inflexão no tratamento da acondroplasia no Brasil, a forma mais comum de nanismo de origem genética. O tema ganhou dimensão nacional após mobilizar 14.266 contribuições em consulta pública, número expressivo para o universo das doenças raras e sinal de que a discussão deixou de ser restrita à comunidade médica. Hoje, o debate envolve ciência, sustentabilidade econômica e o papel do sistema público diante de terapias capazes de alterar a trajetória clínica desde a infância.

Para o médico geneticista Dr. Paulo Victor Zattar Ribeiro, o volume de participação revela uma demanda reprimida. Segundo ele, a mobilização indica que as famílias não estão buscando apenas tratamento para complicações, mas uma resposta mais ampla em termos de autonomia e qualidade de vida. “Esse nível de mobilização mostra que a discussão sobre a acondroplasia deixou de ser um tema restrito aos especialistas e passou a ser uma demanda concreta da sociedade. Quando milhares de contribuições surgem em torno de uma doença rara, isso revela que há famílias mobilizadas, necessidade assistencial não atendida e percepção real de urgência”, afirma.

O ponto central da discussão é que, diferentemente do modelo tradicional de cuidado, o vosoritide atua sobre o mecanismo biológico da doença. Até aqui, a abordagem da acondroplasia esteve concentrada no monitoramento clínico e no manejo de complicações como apneia, compressões, alterações ortopédicas, dor e limitações funcionais. Com a nova terapia, o tratamento passa a incorporar a possibilidade de intervenção precoce na base do problema. “Na prática, muda o objetivo do tratamento. Antes, o foco era reconhecer e tratar complicações. Com a chegada do vosoritide, surge a possibilidade de intervir no mecanismo que reduz o crescimento ósseo na acondroplasia”, explica Zattar.

Os dados científicos têm dado sustentação ao debate. Uma meta-análise liderada por pesquisadores brasileiros, sob orientação de Zattar, reuniu informações de vida real de 696 crianças em diferentes países e confirmou resultados positivos já observados em estudos controlados. Entre os achados, estão melhora do escore de altura após 12 meses, aumento médio da velocidade de crescimento anualizada de 1,82 cm por ano e avanço na proporcionalidade corporal, além de perfil de segurança considerado favorável. Para a discussão pública, esse ponto é decisivo. Em políticas de incorporação, eficácia isolada não basta. É preciso demonstrar reprodutibilidade, segurança e aplicabilidade fora do ambiente ideal dos ensaios clínicos.

Mas o caso vai além da estatura. Na avaliação dos especialistas, o impacto mais relevante pode estar na independência funcional ao longo da vida. “Quando falamos de acondroplasia, não falamos apenas de estatura. Falamos de alcance funcional, mobilidade, independência nas atividades do dia a dia, adaptação ao ambiente, autoestima e inclusão”, diz o geneticista. Nesse contexto, cada ganho clínico acumulado durante a infância pode se traduzir em menos barreiras práticas no cotidiano e em maior capacidade de inserção social no futuro.

O principal entrave está no custo. O tratamento com vosoritide pode chegar a até R$ 1 milhão por paciente, o que impõe um desafio concreto para qualquer sistema universal de saúde. Para Zattar, no entanto, a discussão não pode ser reduzida a uma conta imediata. “É evidente que o custo pesa, especialmente em um sistema universal com recursos limitados. Mas a análise não pode ser simplificada como ‘é caro, então não entra’. É preciso avaliar em qual população o benefício é maior, em que momento o tratamento gera melhor retorno clínico e como negociar condições de oferta mais sustentáveis”, afirma. A lógica, segundo ele, exige uma visão de ciclo longo, com atenção ao ganho funcional acumulado, à redução de desigualdades e ao efeito social do acesso precoce.

Esse ponto se torna ainda mais sensível diante do cenário atual. No Brasil, o acesso ao vosoritide ainda ocorre, em grande parte, por judicialização. Na prática, isso cria uma distorção relevante, porque transforma um tratamento de alto impacto em privilégio de quem consegue recorrer ao Judiciário ou arcar com estruturas jurídicas e financeiras mais complexas. “Hoje, muitas famílias conseguem acesso apenas por judicialização, o que cria desigualdade entre quem consegue acionar a Justiça e quem não consegue”, afirma Zattar. A incorporação ao SUS, nesse sentido, poderia estabelecer critérios mais claros, ampliar previsibilidade e reduzir assimetrias no acesso.

A decisão final ainda não foi divulgada, mas o debate já expõe um dilema central da saúde pública brasileira. De um lado, terapias inovadoras, de alto custo e potencial transformador. De outro, a necessidade de compatibilizar orçamento, escala e equidade. No caso da acondroplasia, a discussão parece menos sobre introduzir um novo medicamento e mais sobre definir qual será o padrão de resposta do SUS diante de doenças raras que exigem visão de longo prazo. Se aprovado, o vosoritide pode marcar a passagem de um modelo centrado no acompanhamento das consequências para outro orientado à modificação do curso da doença desde a infância. E isso, para milhares de famílias, significa discutir não apenas centímetros, mas futuro.

Thiago Michelasi

Thiago Michelasi é jornalista, assessor de imprensa e apresentador de TV. Atualmente é CEO do Tô Na Fama!, portal parceiro de conteúdo do IG e apresentador do Programa Tô Na Fama! em afiliadas da Rede TV!. Além disso é colunista no Cartão de Visita do R7, no IG Gente, no Meia Hora e de diversos outros portais além de já ter sido colunista também no Observatório dos Famosos do UOL. Siga Thiago Michelasi no Instagram: instagram.com/thiagomichelasi
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